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Jair Zandoná - Publicado em 13.09.2006




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Espiar, ver, olhar, espreitar, vasculhar, vigiar, [re]conhecer são termos que expressam a natural curiosidade humana. A vontade de burlar o privado, superar os muros, abrir as portas, escancarar as janelas nos acompanha. Faz parte há muito de nosso imaginário saber como é a vida do vizinho, afinal, viver, por exemplo, em apartamento nos delimita certas intimidades: prédios próximos, janelas frente a frente, paredes que separam as residências, portas de entrada que se encontram, elevador e corredores comuns. Outro exemplo são as garagens que, por serem espaços coletivos dos condôminos, diminuem os espaços verdadeiramente pessoais. Nem sempre os sons, os diálogos, os ruídos se limitam a povoar o “nosso” [o meu] apartamento. Essa aproximação de limites, o estreitamento da intimidade é um dos fatores que acaba por aguçar ainda mais a curiosidade do outro, do nosso vizinho, como se este fosse uma janela indiscreta que espera nos ver/me ver despido, mais real, com menos “segredos”.

Concorrendo para essa vontade de olhar, temos a possibilidade de ver oferecida pelas câmeras de segurança, internas ou não, olho-mágico, interfones que, usados para manter a segurança, servem também para anonimamente vigiar sem ser visto, invadindo o território alheio. Da lente de uma câmera de segurança não vemos apenas uma linda moça subindo o elevador até o nono andar para chegar ao seu apartamento. Pelo ângulo que está disposta, podemos reparar detalhes de sua roupa, o que carrega nas mãos, como se comporta. Ou se ela olha para o grande espelho às suas costas e retoca rapidamente os lábios com batom. A lente de vigilância inevitavelmente transcende a proteção/preservação do privado, monitora todo o espaço que seu olhar atinge e esse olho indiscreto pode inibir quem por ele passar, visto que o olhar perturbador da câmera pode alterar o comportamento de quem sabe que pode estar sendo visto, como propôs Foucault através da estrutura do Panóptico.

Não preciso lembrar que estamos em um mundo pós-moderno, próprio do fragmento, da difusão de tecnologias, da explosão de informações, da velocidade cada vez mais giga poderosa, da necessidade [quase obrigatória] de percorrer muitos campos quase que ao mesmo tempo. Eis o que encontramos à nossa volta. Nesse novo tempo, estamos sendo, gradativamente, estimulados e acostumados com a perda da intimidade e, de algum modo, da subjetividade também. Dois exemplos marcantes são os programas de reality show e a vida de celebridades.

Big Brother, Fama, Casa dos Artistas, Ídolos são programas compostos em sua estrutura por um número X de participantes e que durante algum período disputam não apenas o prêmio final, mas também o carisma do telespectador. Os programas permitem ao espectador analisar/avaliar a partir de várias câmeras o comportamento do participante no jogo. Como a invasão é consciente tanto para quem vê quanto para quem é visto, os participantes acabam vestindo uma máscara, assumindo uma postura divergente da própria. São atores sociais: incorporam um estilo de vida e atuam durante o programa. Não há como pensar que os participantes agem naturalmente durante o confinamento. Eles têm consciência da não-privacidade a que se sujeitaram, pretendem ganhar o prêmio maior do programa. Para isso, precisam convencer de alguma forma quem os assiste, adquirir simpatia para que não sejam eliminados e possam continuar na competição. Mas um fator está a favor de todos os competidores: eles têm um público que gosta de assisti-los e eles de serem vistos.

Do anonimato para a fama instantânea. Durante o período de duração do programa Fulano de Tal se torna tão conhecido, amado, idolatrado, odiado. Conhecemos seus dramas, medos, desejos, sua família, sua vida é vasculhada. Quem pertencia à multidão passa a uma seleta classe de pessoas cujas vidas são acompanhadas por milhões de telespectadores. Os 15 minutos de fama se expandem para algumas semanas. O jogador, se conseguir cativar público permanecerá ainda ascendente na mídia, mesmo depois que o programa tiver terminado. Um exemplo de fama bem-sucedida é da cantora norte-americana Kelly Clarkson que participou da primeira edição do concurso American Idol, em 2002.

Sempre na vigília das câmeras e seus paparazzis, temos celebridades já conhecidas. Sempre visíveis, falar sobre elas provoca Ibope imediato seja via escândalo — afinal, à celebridade está vinculado o rumor, o cochicho, o boato — seja via notícias do cotidiano. Xuxas, Ronaldinhos, Giseles, Lulas estão “na boca do povo” e colaboram para que o mundo de Caras, ofuxico.com.br e Vídeo Show tenham espaços com público garantido, fiel à vontade de saber o que está por trás das câmeras. Penetrar na vida dos ricos e famosos é muito mais fácil e cada vez mais incentivado pela mídia. É por ela, sobretudo, que se mantém aceso o star system.

O star system promove e mantém as estrelas que são transformadas em coisa, produto capitalista. Mesmo que a estrela carregue esse estigma, conforme Edgar Morin, “ela responde ao mesmo tempo a necessidades antropológicas profundas que se exprimem no mito e na religião”1. Como qualquer outra forma de culto, espontâneo e ingênuo, “o culto às estrelas, alimentado pela indústria que as cria, transforma-se em fetichismo”2. Aquele que cultua quer conhecer tudo sobre seu ‘deus pessoal’, “quer possuir, dominar, digerir mentalmente a imagem integral do ídolo”.

Além da mídia televisiva, o espaço virtual derrubou certas barreiras do anonimato. Com o intuito de ampliar a rede de amigos, o Orkut chegou como febre mundial, expõe as pessoas e revela faces de seu perfil. Vejamos: temos uma imagem de exibição, um nick, um perfil de “quem sou eu” e outras questões que o usuário considere relevante informar, álbum de imagens [que tem um limite de 12 postagens], rede de amigos e comunidades às quais a pessoa faz parte, além da “página de recados” da pessoa. Todas estas informações estão disponíveis para todos os usuários da rede, desde que estejam dispostos a “investigar”, vasculhar a vida do outro. Levando em conta que o perfil é público e que não há como limitar o acesso à página, várias ondas oriundas no próprio Orkut surgiram — enfim, o Orkut dita tendências. Uma das mais recentes é “limpar” a página de recados na tentativa de manter certa privacidade e diminuir o olhar curioso. Assim encontramos mensagens dos donos do Scrapbook como: “em função do excessivo voyeurismo de ataque, das disfunções desse olhar bisbilhoteiro e mal intencionado, decidi deixar em branco meu scrapbook. mesmo as mensagens afetivas que ora em diante recebo, ficarão apenas gravadas no coração [não pude evitar o eco]. nada pessoal: impessoal, apagamento biográfico. não deixo rastro, leio e apago. não me entendam mal.” Como todos os métodos de investigação, a arte de bisbilhotar também precisa evoluir para driblar as tentativas de privacidade. Desse modo, encontramos vários perfis fakes, cujo objetivo exclusivo é investigar perfis aleatórios ou específicos. Assim, há o perfil “oficial” e o de “investigagação”.

Essa nova onda foi intensificada sobremaneira quando surgiu há algum tempo outra novidade orkutiana: a opção “visitantes do perfil”. Quando ativada, permite que o dono do perfil saiba quais foram as cinco últimas pessoas que visitaram sua “página particular” o que acabou gerando certo desconforto para boa parte dos usuários. É engraçado: se o Orkut está disponível para todos os seus membros, que entre as dezenas de visitas anônimas que um determinado perfil — público, diga-se de passagem — recebe por dia, por que saber que cinco pessoas desconhecidas a acessaram incomoda tanto e gere mensagens do tipo “quem é você?”, “você me visitou, eu te conheço?” a resposta, bem humorada, talvez esteja no scrapbook de uma usuária que justifica a limpeza periódica desse espaço, pois ela questiona “Você sabia que existem quase cinco milhões de psicopatas no Brasil e que um deles pode estar ao seu lado ou lendo seus scraps exatamente agora?”.

Essa mensagem me reporta ao início do meu texto, o que me impulsiona investigar acerca do voyeuris mo. Sempre encontramos uma janela indiscreta que pode acompanhar um olhar mal intencionado ou não. Como saber? Espreitar é dicotômico. Na mesma proporção que instiga um prazer quase sexual de ver e vigiar alguém que não tenha consciência de que haja um olhar alheio espreitando-o, também pode ser uma ferramenta de segurança e, conseqüente, de poder.

A forma de controle nos remete à literatura distópica, especificamente a 1984, de George Orwell. Longe de ser um lugar de harmonia, em Londres — cidade que ambientaliza o romance — o que existe é controle e dominação, as pessoas são subjugadas, oprimidas.

Este cenário é o de um mundo em guerra, dividido em três megablocos. Todos os blocos vivem em conflitos permanentes pela dominação de outros territórios. E como a guerra é constante, nesse clima a luta, o ódio, a escassez fazem parte do cenário. Além disso, o poder está alicerçado em um Estado de Exceção, de modo que as ações são inquestionáveis, pois visam a segurança e a integridade do povo. Na divisão das classes em 1984, há três distinções que definem o grau de subordinação da população: a dos membros do Partido, que detêm o poder; a dos membros do Partido que operam o sistema e que são manipulados e vigiados; e a dos proles, o restante da população. Entregues à própria miséria, estes tinham como única vantagem não serem vigiados dia e noite e poderem se manifestar, mesmo contra o governo, sem serem punidos, já que eram considerados inofensivos pelo Estado pela sua falta de capacidade de articulação. Aos que eram vigiados, o medo do monitoramento desestimulava qualquer atitude indesejada pelo Partido. Nessa realidade, não há privado tudo podia ser vigiado, supervisionado, como revela Bauman: “Na cidade de Orwell em 1984, todo mundo tinha um aparelho de TV particular, mas ninguém jamais tinha permissão para desligá-lo e ninguém podia saber em que momento o aparelho era usado como câmera pelas emissoras...”3

O símbolo maior de onipotência e onipresença do Estado em 1984 é a manipulação da imagem do Big Brother, construída em oposição a de Goldstein. Ambos não se apresentam corporeamente no texto e somos até induzidos a acreditar que nunca existiram, que são apenas signos do Estado para garantir a identificação e a adesão das pessoas nas causas do Partido. Ambos são figuras a quem as pessoas devem dirigir seu amor incomensurável e seu ódio mortal4.

O Big Brother, visto nas teletelas e nos incontáveis cartazes espalhados por toda a Oceania sem jamais ter sido visto em público, é uma imagem que vasculha com seus olhos, que observa e persegue as pessoas por toda a parte. A legenda que emoldura esse olhar "O Big Brother zela por ti", revela uma ironia perversa, já que o zelar consistia em vigiar e punir, monitorar e açoitar vidas já tão miseráveis. Seu contraponto, o arquiinimigo Goldstein, não é aquele que diz coisas insanas, mas o único que parece capaz de enxergar a realidade. Contudo, mesmo que nunca tenham sido vistos, suas presenças eram “sentidas”. É dessa particularidade que nasceu os programas de reality shows como o Big Brother Brasil.

Esse olhar big brother ao qual o público está habituando-se, demonstra ter sido captado pelo cinema, como prova o sucesso de películas do estilo de Invasão de Privacidade (1993), O show de Truman (1998) e Violação de privacidade (2004). O que estes filmes têm em comum é retratar a arte do voyeurismo, o prazer sentido em ver o que é privado, o que não é exposto a todos. Afinal, somos outros quando estamos sozinhos, nos despimos de formalidades, ficamos, em certa medida, mais à vontade.

É a quebra das fronteiras entre o privado e o coletivo, o permitido e o invasivo que é discutida em Invasão de privacidade ao nos mostrar o comportamento obsessivo de Zeke Hawkins. A trama se desenrola quando Carly Norrys — interpretado por Sharon Stone — se muda para um dos apartamentos de um luxuoso edifício em Nova Iorque. As tomadas de cenas são um misto de imagens externas e internas do filme, quer seja, as imagens captadas por um narrador onisciente e além da ação — o diretor —, e as imagens captadas pela excêntrica personagem a partir do sistema de câmeras de vigilância do edifício — como num mise em abîme. O monitoramento do sistema de segurança é usado, muito além de vigiar, para bisbilhotar a vida dos moradores do edifício. Há câmeras escondidas por todos os cômodos dos apartamentos e, graças à avançada tecnologia, o olhar alcança através das lentes tudo aquilo que deseja ver. Assim, ele acompanha a vida dos moradores, manipulando-as através desse mecanismo para forçar uma aproximação.

Com o convívio, os pequenos segredos do casal são revelados um ao outro. Zeke revela ser o proprietário do edifício, além do seu fascínio por acompanhar a vida das pessoas anonimamente, sempre um admirador secreto das vidas privadas. Acompanha a tentativa de aliciamento de uma menor pelo padrasto, do assassinato da antiga moradora do apartamento aonde residia Carly.

Como é de se esperar, o filme brinca com os espelhos [algumas câmeras estavam instaladas atrás deles]. Ironicamente, além de refletirem as imagens e cenas que se passavam à sua frente, cujo caráter é fortuito, rápido, registravam, gravavam o que se passava. Por si só o espelho nos remete à sensação de espionagem, de estar sendo monitorado, pego de surpresa. Essa fobia é representada por uma das personagens através do receio de ir à academia, visto que o ambiente, via de regra, é cercado deles. Finalmente, poderia apontar para os episódios de reality show, a vida nada secreta das celebridades, a presença de câmeras de monitoramento dentro e fora de ambientes privados e públicos, o crescimento de comunidades como o Orkut, e o enfoque dado à vigilância através de expoentes da literatura e do cinema, como mostras de um imaginário em ascensão. Um imaginário que se consolidou de uma maneira impensável nos últimos cinqüenta anos, e que encontrou nas últimas décadas um público cada vez mais ávido por imagens e informações capazes de revelar o outro em sua intimidade. Quem sabe, a ênfase nesse imaginário revele algo além do que a simples curiosidade pela vida alheia. Talvez, seja o indício de uma vingança pessoal: a sociedade que tem sua própria privacidade cada vez mais exposta, exige como troca o olhar e a história do outro. Afinal, sorria: você está sendo filmado.

Notas:
1 - MORIN, Edgar. As estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p. 77.
2 - Idem, p. 61.
3 - BAUMAN, 1999, p. 56
4 - MÜLLER, 2006.


Leia também:
Tenho 164 amigos! - Ricardo Boessio dos Santos
Resumo do livro 1984 de George Orwell
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Zygmunt Bauman e a Laranja Mecânica - A ordem estampada nos olhos de quem vê - Hugo Leonardo Dias
Há alguma alternativa para o sistema? - Paulo Giardullo

Livros e filmes relacionados ou citados no artigo:
Filmes:
• Violação de Privacidade
• O Show de Truman - O Show da Vida
• Invasão de Privacidade: Sem Cortes
Livros:
• Globalização: as Consequências Humanas - ZYGMUNT BAUMAN
• As Estrelas: Mito e Sedução no Cinema - EDGAR MORIN
• Vigiar e Punir: História da Violência nas Prisões - MICHEL FOUCAULT
• 1984 - GEORGE ORWELL