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Rodrigo Constantino - Publicado em 16.03.2007

"O jeito mais fácil de terminar uma guerra é perdê-la." George Orwell.

Basta mencionar o nome Gandhi para que automaticamente muitos se lembrem do pacifismo como um meio para um fim nobre, que é a paz. “Olho por olho e o mundo acabará cego”, eis o resumo da doutrina gandhiana. Em muitos aspectos, essa doutrina remete aos ensinamentos de Cristo, que teria dito no famoso Sermão da Montanha:
  Mohandas Karamchand Gandhi - Mahatma Gandhi
 


 

“Ouviste o que foi dito: olho por olho e dente por dente; Eu, porém, te digo que não resistas ao mau; mas se alguém te bater na tua face direita, oferece-lhe também a outra”. Em resumo, jogar fora a lex talionis e responder à violência com amor. O próprio Gandhi afirmara que “Cristo é a maior fonte de força espiritual que o homem até hoje conheceu”. E para ele, “a força de um homem e de um povo está na não-violência”.

Tudo isso parece, sem dúvida, muito bonito e nobre. Normalmente, aquele que propaga tais ideais adquire um ar de nobreza, de boa alma imbuída das mais belas virtudes. Quem poderia ser contrário à paz? Ocorre que a paz é uma finalidade, e existem diferentes meios para alcançá-la. Nem sempre o meio pacífico será o melhor. Muitas vezes será necessário, no mundo real, combater violência com violência, ou pelo menos com a ameaça de seu uso. Seria preciso combinar com o inimigo antes a estratégia de paz e amor. Afinal, para o pacifista retribuir chumbo com rosas, é crucial que ele esteja vivo acima de tudo. Mortos não costumam reagir a estímulo algum.

George Orwell foi, enquanto jornalista, bastante realista. Em um artigo de 1948, chamado A Defesa da Liberdade, expressou sua opinião resumida sobre os métodos políticos de Gandhi, tendo como base o livro Gandhi e Stálin, de Louis Fischer: “Gandhi jamais lidou com um poder totalitarista. Lidava com um despotismo antiquado e um tanto vacilante, que o tratava de um modo razoavelmente cavalheiresco e lhe permitia a cada passo invocar a opinião pública mundial”. Ele continua: “É difícil reconhecer como sua estratégia de greve de fome e desobediência civil poderia ser aplicada em um país onde os oponentes políticos simplesmente desaparecem e o público nada ouve além do que lhe permite o governo”. Ou seja: se Gandhi obteve algum sucesso com seu pacifismo romântico, isso se deveu ao fato de ser a Inglaterra do outro lado. Fosse um Stálin, por exemplo, e Gandhi seria apenas mais um mártir, um cadáver perdido numa pilha incontável. Não é preciso ficar na especulação: Dalai Lama adotou uma postura similar e isso nunca impediu que o povo tibetano fosse dizimado pelos chineses.

Um ano após o artigo de Orwell, Pablo Picasso estaria criando uma litografia para o cartaz do Congresso Mundial da Paz em Paris, que eternizou a pomba como símbolo dos pacifistas. Paradoxalmente, o evento era financiado pelos assassinos de Moscou. Picasso foi simpático ao comunismo, e chegou a ser agraciado com o Prêmio Lênin da Paz. Desconheço contradição maior que utilizar Lênin e paz na mesma expressão. Os comunistas sempre fizeram muita propaganda pela paz, enquanto na prática foram sempre sua maior inimiga. Tentavam monopolizar os fins para não terem que debater os meios, e desta maneira, todos que não compartilhavam dos seus slogans românticos eram belicosos ou assassinos em potencial. Foi assim que os comunistas franceses exortaram os soldados a abandonar seus postos poucas semanas antes de Hitler invadir a França. Oferecer a outra face para alguém como Hitler é o caminho certo para a destruição.

Ainda hoje nota-se que muitos seguem os passos de Gandhi, sempre reagindo com discursos lindos quando a escalada da violência é brutal. Basta dar carinho que os psicopatas assassinos poderão virar bons samaritanos. A impunidade permanece e o convite ao crime fica irresistível para os delinqüentes. Assim, os filhos de Gandhi saem às ruas com suas camisetas brancas na cruzada pela paz, já que cruzadas costumam valer mais pelo sentimento de bem-estar que incutem nos seguidores que pelos resultados práticos concretos. Os criminosos agradecem. Olho por olho, e a humanidade acabará cega. Olho por rosas, e somente uma parte da humanidade acabará cega: a parte boa.

Especial George Orwell

Ficha de Gandhi
Nome: Mohandas Karamchand Gandhi
Alcunha: Mahatma Gandhi
Prêmios Nobel: nenhum. Indicado cinco vezes para o prêmio Nobel da paz.
Nascimento: 2 de outubro de 1869 em Porbandar, Índia.
Morte: 30 de janeiro de 1948 em Nova Déli, Índia.

Livros de Gandhi e sobre Gandhi:
GANDHI, Mohandas Karamchand. Minha vida e minhas experiencias com a verdade.
GANDHI, Mohandas Karamchand. Autobiografia : minha vida e minhas experiências com a verdade.
GANDHI, Mohandas Karamchand. A roca e o calmo pensar.
GANDHI, Mohandas Karamchand. As palavras de Gandhi.
ROHDEN, Huberto. Mahatma Gandhi : ideias e ideais de um politico mistico.
RÜHE, Peter. Gandhi.

Filme sobre Gandhi:
Título original: Gandhi
Países: Reino Unido e Índia
Ano: 1982
Idiomas: inglês
Diretor: Richard Attenborough
Roteiro: John Briley
Gênero: Drama
Elenco: Ben Kingsley - Mohandas K. Gandhi, Candice Bergen - Margaret Bourke-White, Edward Fox - General Dyer, John Gielgud - Lord Irwin, Viceroy, Trevor Howard - juiz Broomfield, John Mills - Lord Chelmsford, Viceroy, Martin Sheen - Vince Walker, Ian Charleson - reverendo Charlie Andrews, Athol Fugard - General Jan Christiaan Smuts, Günther Maria Halmer - dr. Herman Kallenbach, Saeed Jaffrey - Sardar Patel, Geraldine James - Mirabehn, Alyque Padamsee - Mohammed Ali Jinnah, Amrish Puri - Kahn, Roshan Seth - Pandit Jawaharlal Nehru, entre outros.
Prêmio: vencedor de oito prêmios Oscar, incluíndo melhor filme, com 11 indicações; vencedor de cinco prêmios BAFTA com 17 indicações; e vencedor de cinco Globos de Ouro. Duração: 188 minutos
Avaliação no IMDB: 8,1 (16.03.2007)

  Janela com grades Mohandas Karamchand Gandhi - Mahatma Gandhi Janela com grades Mohandas Karamchand Gandhi - Mahatma Gandhi Janela com grades Mohandas Karamchand Gandhi - Mahatma Gandhi Janela com grades
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