Polêmica do vídeo de Barack Obama no YouTube - Comercial Big Brother - Lançamento do Macintosh da Apple - Livro 1984 de George Orwell < Artigos < Duplipensar.net
 

 






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Virou mania retirar vídeos do YouTube. Depois do caso da Cicarelli, Gandhi e de outros ao redor do mundo, os detentores do copyright da obra-prima de George Orwell querem retirar o vídeo "Vote Different", filme de propaganda anti-Hillary Clinton, supostamente produzido pelos admiradores do senador Barack Obama, candidato às prévias democratas para a presidência dos EUA.

Em 1984 a Apple decidiu apostar numa campanha de impacto para lançar um produto revolucionário. O Macintosh foi lançado no maior evento esportivo e da mídia americana.

O XVIII Super Bowl foi disputado em 22 de janeiro em Tampa, Flórida. Milhões de americanos ligaram seus aparelhos para assistir a vitória dos Los Angeles Raiders sobre o Washington Redskins por 38 a 9.

Naquele ano a Apple investiu US$ 1,5 milhão em 30 segundos que mudariam a história da propaganda. Baseado num livro que previa um 1984 diferente do ano que as pessoas viviam, mas temiam, o comercial dirigido por Ridley Scott (prestigiado pelo clássico-cult Blade Runner). “Big Brother” foi eleito o comercial da década de 1980 pela revista Advertising Age, melhor comercial de todos os tempos pela TV Guide e melhor comercial de todos os Super Bowl pela ESPN.

O clássico comercial da Apple era uma alusão ao livro 1984 do autor britânico George Orwell. No vídeo homens marcham por um corredor vigiados pelas teletelas. Eles estão em direção a um salão onde o Grande Irmão dita as regras num telão. No cenário monocromático aparece uma loura vestida de trajes atléticos com uma marreta na mão. A polícia corre atrás dela para detê-la. Os homens permanecem sentados para ver o Grande Irmão. A loura entra no salão e lança a marreta como se estivesse numa modalidade do atletismo. O telão explode e o aviso aparece: “Em 24 de janeiro (dois dias após a veiculação do comercial) a Apple vai lançar o Macintosh. E você vai ver que 1984 não será como 1984".

Em nenhum momento é mostrado o Macintosh. Nem precisava. O temor das previsões de Orwell é que viveríamos uma ditadura amplificada pela tecnologia em 1984. Nos anos da Guerra Fria aquele ano era uma ameaça psicológica, e não apenas o ano que viveríamos controlados em todos os lugares, como previu o escritor. O medo da sociedade americana era o controle do país pelos soviéticos. A minissérie "Amerika" chocou os EUA. A produção de US$ 40 milhões foi lançada em 1987 numa resposta ao pacifismo de “O Dia Seguinte”. Se no filme de 1983 os americanos viram nas telas como seria uma guerra nuclear, em "Amerika" eles souberam o que seria feito de seu país se os soviéticos vencessem a Guerra Fria. As forças de paz da ONU ocupariam os EUA, sob supervisão do Leste Europeu. O país seria primeiramente dividido em zonas e depois se fragmentaria em diversas nações como a Appalachia (Kentucky, Tennessee e Virgínia Ocidental) e Ameritech (Indiana, Michigan, Ohio, e Pensilvânia). A Guerra Fria foi vencida pelos EUA. Ironicamente à ficção, a URSS se fragmentou em 15 países.

No vídeo "Big Brother" todos estão vestidos iguais, exceto os policiais. Quase tudo monocromático exceto a "loura da liberdade", vestida de short vermelho, camisa branca com detalhes azuis. Notaram a sutileza das cores? 1984 era o ano previsto por Orwell, mas também era o ano das Olimpíadas de Los Angeles. A mensagem era simples de entender: a atleta (americana) destruía o futuro do pretérito. O futuro chegou. O futuro é americano. O futuro é Macintosh. Dia 24 nas lojas. Tudo isto dito de forma espetacular. Sem mostrar o computador, sem mostrar o preço, telefone de contato, sem imperativos e sem falar “e não é só isso!”.

Existe uma crítica ao domínio dos PC's no comercial. A IBM crescia mais e mais no mercado de micro-computadores. Em 1984 os PC's representavam 1/3 das vendas. 20 anos depois a profecia se concretizou. 98 em cada 100 micros vendidos no mundo eram PC's.

Mudou muito o mundo desde o impacto do lançamento do Macintosh em 1984. No Brasil, a rede de eletroeletrônicos Ponto Frio lançou a campanha promocional “Verão Big Brother”. O que seria uma ameaça há duas décadas se transformou em algo positivo. Assim como nenhum integrante sabe o significado do programa, os telespectadores acham que “Big Brother” é bom; logo, o termo perdeu a conotação da opressão da distopia orwelliana. E, assim, pavimenta-se o caminho para a realidade de 2084.

O comercial da Apple não foi o primeiro êxito do Super Bowl. Dez anos o astro Joe Namath anunciava com estrondoso sucesso os benefícios da Noxzema. Entretanto, o impacto do Big Brother da Macintosh estimulou comerciais criativos e lançamento de produtos no Super Bowl. Os preços dispararam. 30 segundos no Super Bowl de 2007 custaram US$ 2,6 milhões. Mais de 86 mil dólares por segundo. Valor que pode valer a pena para os anunciantes se levarmos em conta que quase 1/3 do país mais rico do mundo está em frente à televisão para acompanhar os lances da decisão e, de quebra, os comerciais.

Por muito pouco o comercial não foi ao ar. Se não fosse a insistência de Steve Jobs a peça não seria transmitida no Super Bowl. Além de Jobs, ninguém da diretoria da empresa gostou do filme. Eles apelaram para que não fosse veiculado com temores que um assunto pesado pudesse liquidar o lançamento do produto.

Em 1981 a Rosenblum adquiriu da viúva de George Orwell, Sonia Orwell, os direitos do livro 1984. O acordo vale até 2044. A empresa convenceu a Apple de desistir da veiculação do comercial "Big Brother", mas o "estrago" já estava feito. Apesar de não existir o YouTube na época, milhões de americanos se surpreenderam e comentaram a propaganda da Apple. Não podiam enviá-lo, mas podiam comentá-lo com o vizinho, no escritório, etc.

Não foi a única polêmica em relação aos direitos da obra-prima de Orwell. Em 2001 a Rosenblum fez um acordo com a Viacom e a CBS sobre os direitos de marca registrada para o programa Big Brother. Desta vez, a empresa estuda tentar retirar a campanha pró-Obama do YouTube.

Em 1990 a Apple disponibilizou o download do comercial na versão QuickTime, anos de proibição velada. Se for retirado do YouTube o vídeo da campanha de 2008 se tornará ainda mais procurado pelos internautas.

Curiosamente, aos 84 minutos de “O Clube da Luta” (Fight Club) a gangue de Tyler Durden destrói computadores da Apple numa loja. O comercial inspirou outros filmes, desenhos animados (Futurama), jogos eletrônicos (Grand Theft Auto: Vice City Stories Grand Theft Auto: Vice City Stories) e agora a campanha presidencial dos Estados Unidos. O vídeo "Vote Different" é uma versão de 1'14 min do clássico comercial da Apple. Foram substituídos digitalmente o rosto e a voz do Grande Irmão pela ex-primeira dama Hillary Clinton. A célebre frase foi substituída por “Em 14 de janeiro as prévias democratas vão começar. E vocês verão porque 2008 não será como ‘1984’”. Na assinatura aparece um “O” lembrando o logotipo da Apple e a revelação: BarackObama.com.

É o chamado marketing viral. As pessoas vêem, gostam e enviam as propagandas para amigos espontaneamente. O marketing viral será decisivo nas campanhas americanas do próximo ano e nas futuras eleições em todo o mundo. No ar desde o dia 20 “Vote Different” teve mais de três milhões de acessos, e a tendência é que este número aumente ainda mais. Obama saiu na frente. Na verdade, os democratas saíram, porque segundo a máxima "Falem mal, mas falem de mim" Hillary está com o nome na mídia mais uma vez. Até saturar o vídeo será assistido por milhões de eleitores. Isto não a faz uma Grande Irmã. Hillary poderá ganhar mais simpatizantes. Ainda é cedo, mas pode acontecer de o tiro de Obama sair pela culatra; a campanha do senador pode decolar como o Macintosh ou com tanto fogo "amigo" o espaço seja aberto para os Republicanos ficarem mais quatro anos no poder.

Barack Hussein Obama é o único senador afro-descendente na atual legislatura. Obama nasceu no Havaí em 1961. É filho de pai queniano negro e mãe branca do Kansas. Barack se intitula o primeiro negro com chances reais de ocupar a Casa Branca. Sua pré-candidatura às prévias do Partido Democrata foi oficializada em 9 de fevereiro de 2007.

A assessoria de Obama recusa a ligação direta com o anúncio. Afirmam que foram os simpatizantes da campanha que produziram o vídeo. Analistas de propaganda eleitoral reconhecem que o YouTube e blogs podem superar a televisão como as mídias mais importantes para as prévias e eleições de 2008. Fica difícil imaginar que este é um vídeo elaborado apenas por simpatizantes. É trabalho profissional. Não apenas a montagem do vídeo, mas a sua elaboração e percepção de lançamento.

O polêmico vídeo da campanha pró-Obama pode mudar a legislação eleitoral dos EUA. Políticos americanos querem regulamentar a divulgação de vídeos anônimos na Internet. Numa época que os anunciantes perdem a cada dia o poder de ditar o que o consumidor deve ou não ver os políticos seguem o mesmo caminho.

E você verá que 2008 não será como 1984.

P.S.: As investigações desvendaram a autoria do vídeo. Philip de Vellis, funcionário da Blue State Digital, empresa que prestava serviços à campanha presidencial de Barack Obama, confessou que é o autor do filme “Grande Irmã”. Pegaram um para Cristo para encerrar o assunto. O publicitário confessou ter feito o vídeo sozinho, sem equipamentos profissionais. Confessou ao “Ministério da Verdade” e foi demitido. A campanha está só começando. E você verá que 2008 não será como 1984.

Revisado em 02.04.2007

Veja o vídeo "Vote Different" - Propaganda pró-Obama
Veja o vídeo "Big Brother" - Lançamento do Macintosh da Apple

Leia mais sobre o Grande Irmão (Big Brother) e 1984:
Resumo do livro 1984 de George Orwell
Tudo sobre George Orwell

Leia mais sobre o YouTube:
YouTube - uma viagem musical - Jaime Leitão
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Vídeo de Daniela Cicarelli na praia pode tirar o site www.YouTube.com do ar no Brasil - O retorno da censura ou o auge do marketing? - Maurício Torres
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Eleições para presidente dos Estados Unidos da América de 2008

  Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984 Big Brother - Vídeo de lançamento do micro-computador Macintosh da Apple no Super Bowl de 1984 Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984 Big Brother - Vídeo de lançamento do micro-computador Macintosh da Apple no Super Bowl de 1984 Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984 Big Brother - Vídeo de lançamento do micro-computador Macintosh da Apple no Super Bowl de 1984 Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984 Big Brother - Vídeo de lançamento do micro-computador Macintosh da Apple no Super Bowl de 1984 Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984 Big Brother - Vídeo de lançamento do micro-computador Macintosh da Apple no Super Bowl de 1984 Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984 Big Brother - Vídeo de lançamento do micro-computador Macintosh da Apple no Super Bowl de 1984 Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984 Big Brother - Vídeo de lançamento do micro-computador Macintosh da Apple no Super Bowl de 1984 Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984 Big Brother - Vídeo de lançamento do micro-computador Macintosh da Apple no Super Bowl de 1984 Vote Different - Vídeo anti-Hillary Clinton da campanha de Barack Obama em alusão ao comercial do Macintosh da Apple de 1984
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