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Adriano Luna de Oliveira Caetano - Publicado em 17.07.2007




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Estamos acostumados a receber diariamente uma grande quantidade de informações com níveis de relevância variados, cuja utilidade é constantemente questionada. É muita informação num curto espaço de tempo para que possamos assimilar, analisar e responder de alguma forma a essa avalanche de dados. Com base nessa assertiva, surge a pergunta: será que tanta informação corresponde a igual quantidade de conhecimento?

Vivemos em uma sociedade na qual a TV é, atualmente, um dos maiores veículos de comunicação acessível a todas as camadas sociais, e é através dela que somos expostos a centenas de informações. É bom ressaltar que, diante da TV, somos seres passivos, ou seja, a TV nos oferece uma programação elaborada, fixa, e, de certa forma, somos obrigados a aceitar o que ela nos propõe, já que não temos a opção de escolher ou modificá-la. O máximo de nossa autonomia se baseia na escolha do canal que receberá nossa atenção. Raras vezes, as emissoras tentam inovar a programação, colocando no ar programas com um valor cultural mais elaborado, como foi o caso da minissérie “A Pedra do Reino”, exibida pela Rede Globo em junho de 2007. Como a maioria dos brasileiros não está acostumada com programas desse nível de elaboração, a minissérie acabou sendo um fracasso de audiência, conforme mostra a coluna “Hã?!”, publicada no Jornal Folha de São Paulo no dia 19 de junho de 2007:

Apesar de incensada pela crítica, a série "A Pedra do Reino", adaptação da obra homônima do escritor paraibano Ariano Suassuna, com direção de Luiz Fernando Carvalho, foi um fracasso de audiência e causou reações sobre seu hermetismo. Em enquete no UOL, a opção vencedora até o fechamento desta edição era: "Tentei assistir ao primeiro episódio, mas achei tudo muito chato e complicado e acabei desistindo", com 34,84% dos votos. Exibida em cinco capítulos, na semana passada, a microssérie teve a pior audiência de um programa de dramaturgia da TV Globo no horário nobre pelo menos nesta década.1

Na mesma reportagem sobre a minissérie, algumas pessoas do meio televisivo tentam explicar o fracasso de audiência, como demonstra o trecho abaixo:

Luiz Fernando Carvalho diz que concorda com as críticas que disseram que a série era "difícil". "Mas esta, me parece, é uma das funções de uma grande empresa de ponta, abrir novos caminhos, assumindo os riscos. Em que outra televisão você poderia assistir à "Pedra do Reino'? Quem teria condições de imitá-la?"

Lisandro Nogueira, que escreveu "O Autor na Televisão" (Edusp), afirma que os telespectadores brasileiros têm seu olhar "domesticado" pelas fórmulas fáceis do melodrama e pela passagem de grande parte deles diretamente de uma cultura oral para outra, visual, sem aprendizado das possibilidades da cultura literária.

Daí a dificuldade que, para ele, o público teve em entender a série de Carvalho. "A obra buscava colocar o espectador para brincar com o imaginário, e ele não está acostumado a isso", diz. "Além disso, o público brasileiro talvez já esteja tão urbanizado que também não consegue se reconhecer ali [no universo de Ariano Suassuna].”

O autor de novelas da Record Tiago Santiago acha que "Pedra do Reino" não foi bem por "falha na comunicação". Para ele, a história estava praticamente incompreensível. “Ninguém quer assistir ao que não consegue entender”. Acho viável produzir alta cultura para a televisão, inclusive com sucesso.”
2

Como o brasileiro está acostumado apenas a programas de gosto popular, como novelas, reality shows e programas de auditório, quando uma emissora coloca no ar algo que destoe disso, naturalmente, será um fracasso de audiência. Essa realidade se aproxima do nosso ponto de discussão: o conhecimento e a informação. Programações que não exigem do telespectador nenhum esforço salvo o financeiro para telefonar e votar no participante que será eliminado, são produtoras em potencial de informação e jamais instigarão o conhecimento, pois estes programas culturais sempre trazem conhecimentos culturais, conhecimento sobre uma determinada região ou de um determinado povo, enquanto, os programas de massa popular trazem, no máximo, algumas informações que, na maioria das vezes, não enriquecem nosso nível cultural.

Convém esclarecer o que consideramos informação e conhecimento, para estabelecermos os parâmetros que distinguem um e outro. O conceito dado à informação pelo dicionário Michaelis é: 1- Ato ou efeito de informar (-se). 2- Transmissão de conhecimento. Levando em conta que desejamos formar uma sociedade capaz de elaborar a sua própria opinião sobre si mesma, sobre política, economia, mercado interno e externo, bem como em outros tantos assuntos pertinentes, o que menos precisamos para que essa sociedade — talvez utópica — é de transmissão. Transmitimos algo pronto, definido, já estipulado, uma decisão final. Desse modo, o ato de transmitir é superficial, desconsidera a necessidade de trazer consigo todos os componentes e processos que fizeram parte durante seu acontecimento até, enfim, chegar ao produto final, simplificado. Vejamos como exemplo de informação a notícia que foi divulgada na edição de 28 de junho de 2007 do Jornal Nacional: “Dólar cai 1% e é cotado a R$ 1,912, e Bovespa fica no zero a zero”3. A notícia se enquadra para mostrar o que é informação. Pois o Jornal transmite a notícia já pronta, e o brasileiro a recebe sem se perguntar o porquê de a economia ser instável, que fatores levam o dólar subir ou descer diariamente, ou como a bolsa de valores é operada. Nesse sentido, essa notícia se torna superficial. É uma simples informação sem sentido significativo para o telespectador, uma vez que este não tem, via de regra, interesse por economia.

Sobre conhecimento, o mesmo dicionário traz a seguinte acepção: 1- Idéia, noção, informação. 2- Saber, instruir, perícia. Pelos sinônimos atribuídos ao verbete, percebemos a diferença de significado entre informação e conhecimento. Enquanto a informação trata algum assunto de uma forma superficial, o conhecimento nos instiga a pesquisar e a investigar sobre esse mesmo assunto. Se retomarmos o exemplo anterior, o conhecimento está relacionado à forma como recebemos a informação e analisamos o contexto no qual ela se insere, ou seja, a entender os motivos que levam o dólar cair, subir ou manter-se estável diariamente. Nosso erro, então, está em confundir conhecimento com informação. É tão normal encontrarmos algumas pessoas que se considerem os “sabe-tudo”4 por terem uma grande quantidade de informações, sendo que o importante é ter conhecimento sobre a informação. É aí que a máxima “conhecimento é poder” nos salta aos olhos. 1984 metaforiza bem tal significado, ao manipular o conhecimento para manter as pessoas sob controle.

1984, de George Orwell, constrói uma realidade distópica, ou seja, uma situação caracterizada por um regime rigoroso e autoritário. O livro conta a história de três mega-blocos que vivem em constante guerra. O cenário principal desta ficção é a Oceania, que equivaleria às nossas três Américas, à Oceania, e parte centro-oeste e sul da África. Esse mega-bloco é controlado pelo Ingsoc (partido político) e comandado pelo Grande Irmão (o Big Brother), que vigia tudo e todos através das teletelas — que é uma espécie de televisão que mostra, a todo o momento, o rosto do Grande Irmão. Além disso, no mega-bloco inteiro estão espalhados cartazes com a seguinte frase “O Grande Irmão zela por ti”5, sendo que esse Grande Irmão nunca foi visto. O idioma adotado no mega-bloco Oceania era a Novilíngua, que aos poucos substituía a Anctingua (língua antiga), o inglês. A cada nova edição do dicionário da Novilíngua, ao invés de haver a inserção de novas palavras, acontecia justamente o contrário. Essa era uma estratégia adotada pelo Grande Irmão para extinguir várias palavras, reduzindo o vocabulário ao extremo e, consequentemente, diminuir a capacidade de pensamento, tornando as pessoas vulneráveis ao Partido. Apesar de ser incentivada pelo Partido, poucos eram os fluentes na novilíngua. Esta era utilizada apenas nos artigos internos e oficiais, e pelas classes dos trabalhadores — foco de controle.

Cada vez que um mega-bloco (re) assume o poder, a mídia — no caso, o jornal ou o rádio — é manipulada e a história do presente e do passado adequada à sua necessidade. Em alguns trechos do enredo, nota-se essa manipulação feita por intermédio da mídia. Como, por exemplo, o trabalho de Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, que é responsável pela manipulação da mídia escrita. Essa manipulação era feita de uma forma absurda, como mostra a parte a seguir:

Times 19.12.83 previsão 3 de 4º trimestre 83 errata verifica número hoje.

Times 14.2.84 minifarto malnotícia chocolate retifica.

Winston discou “números atrasados” na teletela e pediu os exemplares correspondentes dos Times, que escorregaram da boca do tubo pneumático depois de uns minutos de espera. As mensagens recebidas referiam-se a artigos ou notícias que, por um motivo ou outro, deviam ser alterados ou, como se dizia oficialmente, retificados. [...]

[...] O Times de dezenove de dezembro publicará as previsões oficiais da produção de vários artigos de consumo do quarto trimestre de 1983, correspondente ao sexto trimestre do Novo Plano Trienal. O jornal daquele dia continha uma notícia sobre a produção real, pela qual se verificava que as profecias estavam redondamente erradas. O serviço de Winston era retificar as cifras originais, fazendo com que concordassem com as posteriores. [...]

[...] Recentemente, em fevereiro, o Ministério da Fartura dera a público uma promessa (“penhor categórico” eram as palavras oficiais) de que não haveria corte da ração de chocolate em 1984. Na verdade, como o sabia Winston, a ração de chocolate deveria ser reduzida de trinta a vinte gramas no fim da semana. Bastava portanto substituir a promessa original por uma advertência de que provavelmente seria necessário reduzir a ração por volta de abril.6


Outro fato interessante neste texto é a lavagem cerebral que é feita em pessoas que mostram certa resistência ao sistema político. Se algum habitante da Oceania tem pensamento, opinião ou postura contra o governo, ou mesmo que não seja aceita pelo sistema, acaba sendo obrigado a fazer uma visita ao quarto 101, onde é feita a lavagem cerebral. E esta lavagem é realizada por meio de torturas físicas ao “rebelde”, que é encerrada após ele estar certo de que o partido político e o Grande Irmão (Big Brother) são as melhores soluções para a sua vida.

Se aproximarmos a realidade ficcional de 1984 à nossa, nos preocupamos com a maneira com a qual a mídia estimula e direciona o pensamento comum. Somos influenciados por essa mídia, que a cada dia lança “novidades” populares que não estimulam nosso pensamento crítico. E é preocupante como nos deixamos levar tão facilmente por programas com valor ético, moral e cultural questionáveis, como é o caso do Big Brother Brasil (BBB), exibido pela Rede Globo. Não é uma mera coincidência que o título do programa faça menção ao Grande Irmão. O BBB foi inspirado neste livro, porém, a configuração de sua estrutura mostra de uma maneira inofensiva, e até divertida, a presença das câmeras. Não percebemos que é uma forma direta de vigiar e manipular a vida dos participantes. De mais a mais, os participantes confinados acabam manipulando os telespectadores que acompanham o programa.

Via de regra, os participantes são jovens dentro do padrão de beleza estipulado pela sociedade, possuem um linguajar longe de ser padrão, cheio de gírias, expressões, e que influenciam as pessoas que estão na frente da tela, assistindo-os todas as noites. É o que aconteceu na primeira edição do programa, quando o participante Kleber “Bambam” ficou ainda mais famoso pela sua manjada frase “faz paRte”, ou quando a participante Juliana, da terceira edição, se tornou “marcante" com seu repetitivo “ninguém merece”. Exibidas no programa, essas expressões viraram febre nacional, e em pouco tempo já estavam no vocabulário de vários brasileiros. Para garantir a audiência do programa, a emissora prefere investir em candidatas “siliconadas”, ou rapazes “bombados”, e acabam transmitindo aquilo que o brasileiro gosta de ver: intrigas, baixarias, mulheres de biquínis, “jogo sujo” e cenas debaixo do edredom.

É bom ressaltar que não pretendemos culpar a emissora, pois ela transmite aquilo que o brasileiro está acostumado e deseja ver, visto que quando há a tentativa de investir em algum programa cult, antes mesmo de estrear, a própria emissora já crê que será um “fiasco”. Como já citamos, a minissérie “A Pedra do Reino” foi o programa que atingiu a menor pontuação em Ibope na emissora na última década. E esse grande fracasso, de certa forma, é responsabilidade do brasileiro que não está acostumado com programas desse nível cultural. O interessante é que o próprio diretor já imaginava a pouca aceitação do público, como já mencionamos no trecho citado do Jornal Folha de São Paulo.

A polêmica gerada acerca de “A Pedra do Reino” teve tanta repercussão que houve quem defendesse que minisséries culturais deveriam ser transmitidas em canal cultural ou a cabo, jamais em uma TV aberta, como enfatiza o relato abaixo:

Para J.B. de Oliveira, o Boninho, diretor de núcleo responsável por "Big Brother Brasil", porém, há limites para a arte na TV. "Ela deveria ter seu espaço numa TV educativa ou cabo, nunca na TV aberta de massa. Isso não desqualifica produtos de extremo bom gosto, qualidade artística e cultural. Na década de 80, a Globo apresentou após o "Fantástico", a filmografia completa de Chaplin. Exibiu peças musicais clássicas e fez um especial sobre Villa-Lobos. Essa é a forma de arte possível na TV de massa, mais acessível ao grande público."7

Está na hora de estreitarmos nossa consciência e combater a manipulação, como tentou Winston Smith, em 1984. Precisamos ser instigados ao conhecimento, e não ficarmos satisfeitos somente com a informação. Temos um olhar bastante pessimista do mundo e cremos estarmos longe, muito longe de mudarmos isso. Afinal, já nos acostumamos aos “Bambans” e às “Brunas” que entram em nossas vidas. Bom, é melhor parar este pensamento por aqui, pois o Grande Irmão pode estar vigiando, e não queremos ir à berlinda, correndo o risco de sermos eliminado desse grande espetáculo chamado VIDA.

Notas:
1 - COLOMBO, Sylvia; CASTRO, Daniel; CARIELLO, Rafael. Hã?!. Disponível on-line em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1906200707.htm. Acesso em: 03 jul. 2007.
2 - COLOMBO, Sylvia; CASTRO, Daniel; CARIELLO, Rafael. Hã?!. Disponível on-line em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1906200707.htm. Acesso em: 03 jul. 2007.
3 - Notícia exibida no Jornal Nacional, transmitido pela Central Globo de Jornalismo, pertencente à Rede Globo. Em 28 de junho de 2007.
4 - Tomamos como empréstimo o significado desta expressão usada em várias regiões do Brasil. Sabe-tudo é usado para denominar a pessoa que se acha muito inteligente, esperta e detentora de grande conhecimento.
5 - ORWELL, George. 1984. São Paulo: Nacional, 2002, p. 6.
6 - ORWELL, op. cit., p. 44.
7 - COLOMBO, Sylvia; CASTRO, Daniel; CARIELLO, Rafael. Hã?!. Disponível on-line em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1906200707.htm. Acesso em: 03 jul. 2007.

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