O cigarro duplipensado < George Orwell < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro O Cigarro na capa do disco do Van Halen 1984 Marylin Monroe fumando cigarro  

Fabrício Cruz - Publicado em 12.07.2004




Publicidade


Qual e explicação de ter correlacionado um dos produtos mais consumidos em todo o mundo nos tempos atuais, à idéia principal do romance de George Orwell, que critica o totalitarismo e os governos que se utilizam da força e reclusão de conhecimento para seu inteiro e único gozo do poder? Qual a ligação das diretrizes do partido – guerra é paz, liberdade é escravidão, Ignorância é força – com a filosofia das empresas de tabaco em todo o mundo?

De início torna-se difícil a quem tem pouca, ou nenhuma, noção do que fala o livro 1984, obra prima na categoria de romance político criada por Orwell, assimilar essas informações. Acontece que a todo o momento somos metralhados por idéias políticas que constituem o duplipensamento, capacidade de aceitar e assimilar duas idéias contraditórias ao mesmo tempo, na tentativa de nos persuadir em relação aos conceitos básicos que temos do que é certo ou errado, repugnante ou aceitável, permitido ou proibido.

Todos sabemos, ou no mínimo existe a noção superficial, de que o cigarro é um agente fundamental em diversos males à saúde, mas poucos sabem que essas informações só se tornaram acessíveis há pouco tempo atrás, tendo elas sofrido pelo ocultação ao conhecimento do consumidor global para benefício das vendas de suas respectivas empresas, evitando assim, uma eventual queda na consumação deste produto. Hoje se sabe que o cigarro auxilia poderosamente no aparecimento de mais de 20 tipos de câncer e outras dezenas de doenças e disfunções no organismo humano, provocando apenas um único “benefício”; o prazer de fumar. Ao ser perguntada sobre a utilização da nicotina dentre os ingredientes que constituem o tabaco, a British American Tobacco (BAT) afirmou que “A nicotina é importante para dar o sabor ou aroma, não para a dependência” e que “A definição de dependência é ampla e variada. Pessoas são dependentes de Internet. Outras são dependentes de shopping, sexo, chá e café. A linha que eu consideraria é a de que o tabaco não causa dependência e sim de que é formador de hábito”. Sendo óbvia a contra-argumentação de tais afirmações convém indagar por que essa e outras empresas insistem em ocultar a verdade?

Ignorância é Força

Há aqueles que dizem ter total noção de todos os malefícios que o cigarro provoca mas preferem continuar fumando por livre e espontânea vontade, tomando para si uma ignorância consciente e preferindo esconder no intimo de suas mentes a idéia de que está se auto-intoxicando, bloqueando a razão e filtrando apenas a informação mais conveniente para a situação, o prazer do momento. Isto é duplipensar!

Este público é considerado demasiado jovem, estando entre 14 e 24 anos, período em qual o indivíduo busca sua auto-afirmação e constitui a sua personalidade, tornando-se frágil dentre as investidas estratégicas do marketing tabagista, que prega diversos atributos a quem se utiliza do produto, bem como beleza, status, poder, sucesso, liberdade e inteligência. A mídia exerce, então, a função das Tele telas, mostrando em filmes, comerciais e novelas situações que contribuam para a associação a algum desses atributos, e além do bem estar físico que o cigarro provoca, se alia a ele o fator psicológico fomentando ainda mais a ignorância deste ato. Após a revelação dos arquivos secretos existentes nos documentos internos de grandes empresas de tabaco, por meio de ação judicial de estados norte-americanos, crianças e adolescentes são descritos como “reservas de reabastecimento” e um dos principais alvos estratégicos, devendo se tornar dependentes do cigarro ainda cedo.

"Eles representam o negócio de cigarros amanhã. À medida que o grupo etário de 14 a 24 anos amadurece, ele se tornará a parte chave do volume total de cigarros, no mínimo pelos próximos 25 anos."

J. W. Hind, R.J. Reynolds Tobacco, internal memorandum, 23rd January 1975

Estas revelações tornam visíveis todos os registros escondidos do público nos últimos 40 anos, retirando o caráter maleável da verdade moldada a boa vontade das empresas tabagistas. Sorte não existir um buraco da memória ou não teríamos provas tão contundentes proveniente das próprias fábricas de cigarro. Hoje em dia temos acesso a verdade sobre esta droga, mas ainda sofremos pela manipulação mental que a pseudo-liberdade exerce sobre os consumidores no mundo inteiro.

Liberdade é Escravidão

Passeando pelo site da Souza Cruz, maior empresa brasileira de tabaco, já de início nos deparamos com belas imagens de paisagens e cenários turísticos, frutas e iguarias nacionais, com cenas de esportes e até da maior festa brasileira existente; o carnaval. Associando aparentemente o produto a coisas boas. Daí torna-se notável a intenção dessa empresa de continuar a se utilizar do mais poderoso artifício que lhes pode provir, a manipulação psicológica para a manutenção de sua ideologia barata .

Essa liberdade ilusória inserida na filosofia do cigarro mantém e contribui para a conquista de novos adeptos à cultura do fumo. De acordo com o histórico do tabaco, fumar cigarro era raridade até o final do século 19. Em 1880, cerca de 58% dos usuários de tabaco eram mascadores de fumo, 38% fumavam charuto ou cachimbo, 3% cheiravam rapé e apenas 1% era fumante de cigarro. Nesse ano, o americano James A. Bonsack inventou uma máquina capaz de enrolar 200 cigarros por minuto, o que criou condições para o aparecimento da indústria. Então veio a distribuição de cigarros aos soldados nas trincheiras, durante a Primeira Guerra, e seu uso, que se achava restrito às camadas marginais das sociedades americana e européia, explodiu.

Em 1900, o consumo anual americano era de cerca de 2 bilhões de cigarros; em 1930, chegou a 200 bilhões. As duas guerras mundiais, que afrouxaram a oposição ao cigarro, a urbanização acelerada, a criação do mercado de massa e a expansão do mercado de trabalho, criaram as condições para que a epidemia do fumo se espalhasse pelo mundo, envolta em glamour por Hollywood, como símbolo de modernidade.

Para ter-se noção de como essa liberdade só convém aos fabricantes de cigarros o médico Drauzio Varella, famoso cancerologista, relatou em um artigo contigo em seu site sobre sua experiência com o cigarro;

“Em 30 anos de profissão, assisti às mais humilhantes demonstrações do domínio que a nicotina exerce sobre o usuário. O doente tem um infarto do miocárdio, passa três dias na UTI entre a vida e a morte e não pára de fumar, mesmo que as pessoas mais queridas implorem. Sofre um derrame cerebral, sai pela rua de bengala arrastando a perna paralisada, mas com o cigarro na boca. Na vizinhança do Hospital do Câncer, cansei de ver doentes que perderam a laringe por câncer levantarem a toalhinha que cobre o orifício respiratório aberto no pescoço, aspirarem e soltarem a fumaça por ali.”

Dr. Drauzio Varella, cancerologista do Hospital do Câncer de São Paulo , Droga pesada, 16 de outubro de 2003

Guerra é Paz

A alusão que farei aqui pode não ser das mais adequadas, mas cabe interligar esta doutrina, que mais da base ao regime totalitário imposto pelo partido, no livro 1984, a batalha que todo fumante trava quando finalmente decide abandonar o vício. “A droga provoca crise de abstinência insuportável. Sem fumar, o dependente entra num quadro de ansiedade crescente, que só passa com uma tragada. Enquanto as demais drogas dão trégua de dias, ou pelo menos de muitas horas, ao usuário, as crises de abstinência da nicotina se sucedem em intervalos de minutos. Para evitá-las, o fumante precisa ter o maço ao alcance da mão; sem ele, parece que está faltando uma parte do corpo. Como o álcool dissolve a nicotina e favorece sua excreção por aumentar a diurese, quando o fumante bebe, as crises de abstinência se repetem em intervalos tão curtos que ele mal acaba de fumar um, já acende outro.”

Este trecho retirado do artigo do Dr. Drauzio ilustra muito bem toda a Guerra interior ao qual o dependente é obrigado a aderir se preferir não sofrer as conseqüências da degradação do organismo provocado pelas mais de 4.500 substâncias existentes no cigarro, levando a concluir que só estando em constante guerra com o organismo provocamos a paz de espírito necessária para persistir sem o vício. Sem essa batalha na há calmaria. Nem sempre é fácil largar o hábito do fumo. Mas sempre é bom para a saúde. Alguns benefícios são quase imediatos. Trinta minutos depois da pessoa fumar o último cigarro, pressão arterial, batimento cardíaco e temperatura voltam ao normal. Ao final de oito horas, o nível de oxigênio e gás carbônico do sangue começa a se equilibrar, e a chance de se ter um ataque do coração começa a cair. Algumas semanas depois de ter parado de fumar, o olfato e o paladar começam a funcionar normalmente, e a respiração se normaliza.

A pessoa que para de fumar sente-se mais energética e o seu risco de desenvolver um ataque cardíaco, após alguns meses, vai cair para menos de 50% do que quando fumava. Depois de 10 anos sem fumar, aquelas pessoas que tinham células pré-cancerosas nos pulmões passam a ter células normais e, somente após 20 anos de abstinência, passam a ser consideradas não fumantes.

Essa árdua espera que se trava ao combater a dependência é o preço que se paga ao confundir virtude com vício.

Daí, a que somos levados concluir após essa equiparação dos princípios de duplipensar com o cigarro. Será que ainda seremos manipulados pela tirania tabagista ao qual aprisiona mentes, mantendo-nos em uma pseudo-realidade onde se vê beleza acendendo um cigarro, onde se ganha status ao ser fumante, onde se auto-escraviza ao preferir a liberdade de expedir fumaça pela boca? Será esta uma matrix que nos envolve pela superficialidade exterior ao comprarmos virtudes em um barzinho na esquina, cegando-nos por completo da verdade que literalmente habita nosso interior e degrada órgãos e sistemas inteiros em nosso corpo? Convém não esperar o fatídico final de 1984. Mas não quero estragar o prazer de quem ainda não o leu, mas vale citar que este final não é indicado a ninguém.

Leia também:
Fumar afeta a visão! - Adilson Luiz Gonçalves
Especial George Orwell.


[+] Envie este artigo para um amigo: