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Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória Caos, complexidade e 1984 O buraco da memória  

Fernando Radin Bueno - Publicado em 18.09.2004




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"Os homens aprenderam com Deus a criar, mas foi com o Homem que deus aprendeu a amar."
Cordel do Fogo Encantado

O presente texto tem o intuito de traçar um paralelo entre a teoria do caos e a brilhante obra prima de Eric Arthur Blair, "1984". Com o pseudônimo de George Orwell, Blair descreve uma distopia, uma utopia às avessas, em que o indivíduo se encontra cada vez mais sufocado pelo sistema, anulado pela sua própria espécie, culminando assim em um beco sem saída para o espírito de liberdade. É importante notar uma influência dos trabalhos de Kafka, como "o processo" e "metamorfose", em que o indivíduo também não se encontra na melhor das situações, sendo o desfecho destes livros também uma distopia. Tudo se passa em um ambiente que gira em torno de uma guerra perpétua entre três blocos mundiais (Eurásia, Lestásia e Oceania), marcada pelo Estado autoritário e dominador, deixando assim pouco espaço de manobra para o indivíduo. A trama se desenrola como em uma música crescente, culminando em uma frase que representa a doutrina do não-ser, a negação da vida e a anulação da liberdade: "2+2=5". Como não poderia deixar de ser, paralelos com a atualidade se fazem mais do que necessários, pois "1984" não é um livro de ficção, é sim um enfoque da realidade que, apesar de escrito em 1948, aponta visionariamente para muitos fatores que hoje se fazem presentes, como o vácuo existencial do indivíduo e o "espírito de rebanho", este apontado pelo filósofo Nietzsche ainda no século XIX; como ele mesmo disse, "alguns homens nascem póstumos".

1. Da ordem ao caos
Quando se pensa no significado da palavra caos logo de cara associamos à desorganização e bagunça; o adjetivo caótico é visto como pejorativo pela maioria das pessoas. É o oposto de ordem, o antônimo de controle, em outras palavras, representa tudo que deve ser evitado tanto na esfera individual quanto em escala social, sendo o repúdio ao caos o paradigma dominante na política e na economia. Uma sociedade anarquista é caótica, já um governo com bases democráticas organizado, correto?!

Não precisamos sair muito da caverna para percebermos o quanto estamos atolados no caos - quero deixar claro desde já que a palavra caos detém um sentido duplo (senão triplo, ...), sendo sua própria interpretação caótica (!), podendo tanto denotar uma notória desordem quanto um determinismo altamente complexo e sensível às mudanças nas condições iniciais - também não é necessário muito esforço para se dar conta da queda vertiginosa que a humanidade tem sofrido nestes últimos séculos, uma verdadeira espiral decrescente despencando conforme a queda de um cometa. Os atentados às torres gêmeas, as invasões inconseqüentes dos E.U.A e a explosão irracional de nova religiões são apenas um reflexo do vácuo existencial deixado por nós em nós mesmos; essa busca por segurança e verdades prontas e fáceis leva a um fanatismo e alienação incomensuráveis, de efeitos apocalípticos.

Assim como Orwell brilhantemente soube descrever, a incompetência que o ser humano tem em sustentar-se é ao mesmo tempo lindo e patético; sem nossos dois minutos de ódio não agüentaríamos levantar numa segunda-feira de inverno e enfiar a cabeça debaixo do chuveiro: "dane-se!! Quero voltar pro meu sonho. Onde é que eu estava mesmo?". Precisamos saber que fazemos parte de algo maior que nós mesmos, pois somos incapazes de nos agüentar sobre nossas próprias pernas; precisamos de muletas, não porque não sabemos andar, mas porque temos medo do peso que a autonomia traz ao indivíduo. Sartre dizia que o ser humano se esconde de si mesmo na sociedade, eu também nunca acreditei que o homem fosse um ser sociável, considerava-o um covarde que não agüentaria o tranco da existência sozinho e por isso renunciava a si mesmo em troca de uma vida indolente e previsível; diabolicamente contraditório.

Escondendo-se atrás do artifício racional, o homem diz-se detentor da característica ímpar e suprema da natureza, condenando todo o restante dos seres vivos a uma escala inferior em uma pirâmide criada por ele e "logicamente" para ele mesmo. Parece óbvio então que o homem fora feito à imagem e semelhança de Deus, já que encontramos em ambos os mesmos traços de fraquezas emocionais. Só sabemos quem é o demônio e quem é Deus através de uma visão unilateral da história, que descarta o argumento contraditório e valoriza quem aceita sem pensar nem contestar (chamam isso de fé, como se tê-la fosse assim tão fácil), reduzindo-nos novamente a meros animais irracionais. Afinal não temos orgulho da nossa razão? Todo o especismo está baseado nisso!

Como a mosca que aceita o convite da aranha a espécie humana viu-se tapeada pelo que ela mais acreditava, sendo o indivíduo o começo e o fim de todo esse sistema kafkaniano e assustadoramente sensual. Parece que o ser humano não confia no homem e para produzir precisa de incentivos divinos, daqueles do tipo: "Deus é perfeito e te ama!"; "Jesus morreu por nós!"; "O Grande Irmão zela por ti!!". Quantas vezes já não nos sentimos como Winston, preso em um universo claustrofóbico e irreversível, trabalhando dia a dia para que cada vez seja mais difícil escapar. Sinto muita semelhança quando penso nos dicionários de novilíngua, que cada ano são mais finos, inversamente proporcional ao sentimento de orgulho das pessoas ao comentarem tal assunto. As línguas de menor força e os dialetos de várias tribos espalhadas pelo mundo estão desaparecendo pouco a pouco, a cada ano nossa diversidade cultural fica mais fina e nos sentimos orgulhosos dos progressos do mundo globalizado, vestimos a máscara de Maquiavel ao penhorarmos nossa cultura em troca de migalhas.

A humanidade caminha para um futuro extremamente linear, no sentido em que cada vez mais "afunilam" nossas escolhas e possibilidades de manifestação individual; basta olhar para a chamada "indústria cultural" e ver no que ela transformou a música, a literatura e todas as formas de expressão humana, reduzindo o arco-íris a manifestações de preto e branco. Não devemos, contudo, ser duros demais com nós mesmos, pois platonizamos demais nossa espécie e nossos adjetivos, sofrendo assim a dura realidade e imperfeição do mundo inteligível que estão inerentes à decepção.

Estamos literalmente escorregando nossa razão por um funil, abreviando-a de forma que, no fim do túnel, não nos sobre nada além de convenções impostas e comodismos alienantes. Os dogmas não precisam ser necessariamente religiosos, podem ser morais, sociais ou familiares, completando assim o ciclo de objetivação do ser humano rumo ao "espírito de rebanho", acepção descrita por Nietzsche como um fenômeno de massa que reduz os seres humanos, na medida que sufoca suas escolhas e converge suas ações rumo ao previsível e esperado, não havendo assim nenhuma reação que altere o status quo. Devemos então, segundo Nietzsche, promover uma "revalorização dos valores", purificando-nos dos conceitos carcomidos e desprendendo-nos do jugo do conservadorismo; é necessário uma valorização maior do indivíduo, sua sobreposição às convenções que barrem sua auto-suficiência. Não usamos muletas porque mancamos, usamos devido a nossa falta de confiança e intimidade para com o espelho, pois, se olharmos bem, não somos tão feios assim.

"Siga a estrada de tijolos amarelos!!!"
De acordo com a teoria da complexidade o saber não é algo que possa ser colocado em caixas, isto é, não pode ser fragmentado ou limitado por convenções, mesmo porque ele está em constante desenvolvimento, é um processo dinâmico. Edgar Morin enfatiza essa idéia mostrando que o ser humano não é só fruto de fatores fisiológicos, mas também de influências culturais, sociais e físicas, abrindo assim o leque de vetores que implicam no que somos. A fragmentação do saber pela ciência é um tabu a ser quebrado pela teoria da complexidade, pois são todos pontos da mesma teia; a visão holística propõe uma reintegração dos saberes, uma pesquisa mais profunda e abrangente, um distanciamento da alienação. Em um sistema caótico temos a junção de estâncias vistas pelo pensamento linear como inconciliáveis e até mesmo contraditórias, nela, a medicina se encaixa com a engenharia, a matemática com letras e a ciência com a religião; no caos, a verdade está intimamente ligada com o erro e é isso que bota a baixo conceitos até então defendidos tão veementemente pelo paradigma cartesiano-linear.

A teoria do caos está sendo usada com muito sucesso por economistas e empresários na bolsa de valores, uma vez que lida com sistemas complexos e detém uma lógica não-linear. Ora, é notório que os Estados estão sujeitos à "mão invisível" do mercado, sendo este o ponto convergente de toda a dinâmica mundial atualmente: Agora sabemos que o Iraque não apresentava qualquer ameaça a "paz mundial" e que não tinha armas de destruição em massa, então porque foi destruído? Porque tinha petróleo. A Coréia do Norte não tem petróleo e detém bombas nucleares, então porque não é atacada? Apesar de esse raciocínio depender primeiramente de uma lógica clássica, os fatores caóticos são inerentes, pois o petróleo é uma das base do imperialismo dos E.U.A, sem ele o arranha-céu pode cair (qualquer semelhança não é mera coincidência) e com ele toda a estrutura econômica presente em Wall Street.

A teoria do caos acredita que, ao mudar as condições iniciais de um sistema estará comprometendo o todo, pois a parte detém o todo e vice-versa. Assim como o indivíduo é fruto de seu meio, também o meio é fruto dos indivíduos que o compõem e é essa relação de mútua interferência que faz da complexidade algo tão caótico e frágil. Em "1984", Winston é o que chamamos de ruído, uma tendência que aparece para apresentar uma nova forma de se ver a realidade, é uma instituição transformadora e libertária e, como não poderia deixar de ser em um universo autoritário e monocromático, acaba por ter seus ideais destruídos e sua existência sufocada. Outro exemplo de ruído é o personagem nietzschiniano Zaratustra, o qual isola-se do mundo em uma caverna durante dez anos, meditando sobre a verdade, a natureza e o ser humano. Zaratustra tem um verdadeiro êxtase ao olhar para o nascer do Sol e decide espalhar sua sabedoria para com os seus semelhantes. Nem precisamos dizer a frustração e decepção deste personagem ao aplicar sua filosofia aos ditos "animais de rebanho"; a semelhança de Zaratustra com Cristo é proposital, já que Nietzsche sempre defendeu que o único cristão de verdade teria morrido na cruz.A questão do ruído é essencial ao sistema, pois leva à tona uma revisão do que até então foi praticado, uma revalorização de valores. A relutância do sistema e das pessoas em aceitar tais propostas é natural, pois abala estruturalmente seus ideais e sonhos, é um balde de água fria que nem todos estão dispostos a receber.

O indivíduo como ruído
É importante ressaltar que, em um mundo objetivo, que segue uma linha reta, a manifestação de gostos e pensamentos individuais é vista como ameaça ao status quo, o "espírito de rebanho" se faz necessário e não o "espírito-livre". Instituições como a moda, igreja e ciência estão certamente reunidas em um mesmo saco, pois compartilham dos mesmos princípios, detém em seu âmago a mesma essência deturpada da subjetividade. Imaginem uma pessoa que faça questão de usar somente as roupas que lhe são confortáveis e que acha bonitas, não acredita que haja um caminho padronizado para o céu e que duvida dos métodos de verificação da ciência; esta seria um ruído, uma mancha no belo quadro da realidade, uma micro tendência de autonomia e autognose, estaria se expressando em sua maior potência. Isso não quer dizer que o contrário não possa ser verificado como expressão de subjetividade, pois os fatores que influenciam a formação do sujeito são por demais caóticos e complexos, reduzi-los a meia dúzia de princípios seria uma limitação do espírito.

Todo indivíduo se caracteriza como um ruído em potencial, uma vez que tem em suas mão uma característica única: a singularidade de sua existência. A crença seria um reflexo de sua projeções no mundo, uma forma de se expressar externamente, não pode ser pensada como uma negação do ser. A dinâmica da realidade está em constante e perene mutação e desenvolvimento, sufocar expressões de subjetividade deve ser visto como o maior dano ao ser humano. O ruído, assim como o indivíduo, são expressões do novo e do libertador. Tanto Winston em "1984", quanto Zaratustra ou Cristo fizeram sua parte ao afirmarem-se em seu mais puro estado de consciência e sofreram muito com tal escolha, porém, estes serão lembrados pelos espíritos póstumos que detém dentro de si uma chama que se recusa a apagar.No livro de Orwell, Winston acaba sendo preso pela polícia do pensamento e sofre uma lavagem cerebral combinada com tortura que acabam por destruir seu ideal de liberdade; Zaratustra é expulso da cidade onde pregava por um palhaço e tem como seu único discípulo um cadáver; Jesus morre na cruz e tem sua ideologia deturpada e distorcida.

A mancha no quadro serve para que, a partir desse "erro" ou "defeito" uma nova ordem nasça e com ela um novo paradigma; o ruído na música é um grito de mudança, de que a partir daqui o desejo de transcendência se faz necessário. Se o tijolo fala e o muro dá um grito é mister que sejamos tijolos, pois as ovelhas balem em uníssono e por isso as tosamos para que possamos nos aquecer no inverno. O indivíduo é um ruído em potencial e lançar-se ao mundo é um desafio de máxima projeção, de máxima afirmação da vida.

Leia o Especial George Orwell.


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