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Releitura de “A Revolução dos Bichos” de George Orwell
Márcio Salgues - Publicado em 22.11.2004




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Nossa granja está melhor. Graças ao Camarada Napoleão! Pelo menos não estamos mais sendo explorados por aqueles humanos bastardos que nos espancavam às coronhadas noutros tempos. Eram os antigos donos. Consideravam-se intelectualmente superiores a nós e nos faziam trabalhar pela parca porção de ração, suficiente apenas para nos manter vivos.

É bem verdade que a ração não tem sido tão farta ultimamente. Há também, ainda, muitos ratos aquém das nossas sebes, que vivem de forma selvagem, à cata de alimento pelo lixo, doentes, entrando furtivamente no nosso estábulo e surrupiando os já limitados víveres. Não sabemos ler corretamente, mas, de acordo com o Camarada Napoleão, as coisas estão bem melhores do que antes. Garganta, todos os meses, anuncia os números que indicam a prosperidade da granja. Os índices positivos se superam mês após mês. Eu, que sou dos bichos menores, não entendo bem a discrepância entre os números e a realidade que vejo ao caminhar pela granja. Mas, se o Camarada Napoleão diz que as coisas vão bem, então é porque vão bem. O Camarada Napoleão tem sempre razão.

Sim, também é verdade que há muitos problemas a serem resolvidos ainda, o que o Camarada Napoleão faz questão de lembrar constantemente. Há muito trabalho a ser executado. A granja ainda sofre com o enorme desleixo dos antigos donos. O Camarada Napoleão nos explicou também que, a culpa de tudo isso é do Bola-de-Neve. Sim, Bola-de-Neve, que nos tempos dos humanos parecia lutar pela Revolução, na verdade havia estado num conluio com eles todo o tempo. Hoje, tem andado meio que às escondidas e, comenta-se à boca miúda, espera a hora de retornar à granja e derrubar o Camarada Napoleão.

Apesar de tudo, vez por outra alguém insiste em tentar difamar o Camarada Napoleão. Outro dia, por exemplo, uns papagaios tagarelas andaram falando, maldosamente, que o Camarada Napoleão vinha ingerindo bebida alcoólica e tentava ocultar algumas coisas dos demais bichos da granja. Imediatamente, alguns cães muito zelosos da moral do Camarada, ameaçaram decepar as línguas dos papagaios e as coisas até se acalmaram um pouco.

Mas, confesso, que não entendo algumas coisas. Tenho, por exemplo, a vaga recordação de que um dos mandamentos da nossa Lei dizia que “qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo”. E, já há algum tempo, o Camarada Napoleão tem andado sobre duas pernas, confraternizando com os humanos da grande fazenda do norte. Na verdade sei que estava enganado. Afinal, Garganta já nos esclareceu que o mandamento correto sempre foi “quatro pernas bom, duas pernas melhor”.

O importante, contudo, é que estamos todos mais felizes. A prova disso pode ser vista nos rostos de alguns bichos, cujas imagens têm sido estampadas no estábulo, como o galinho corredor que foi condecorado com a medalha de “Herói Animal, Primeira Classe”. Antes do galinho, já havia a imagem do rouxinol que se acidentou num dos seus vôos e que, superando tudo, continuou a cantar. E ainda o alazão que, tendo quebrado a pata, milagrosamente, não precisou ser sacrificado, continuando a alegrar a bicharada.

Viva o Camarada Napoleão! Somos da Granja do Sol e Mar e não desistimos nunca!

Leia também:
A granja da igualdade - Resenha do livro "A Revolução dos Bichos" de George Orwell - Rodrigo Constantino
Especial George Orwell

Livro citado pelo autor do artigo:
Livro A Revolução dos Bichos - GEORGE ORWELL


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