Demian, 1984 e nós: natureza, conseqüência ou burrice?< George Orwell < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
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Um comparativo de Demian de Herman Hesse e 1984 de George Orwell
Maurício Gomes Angelo - Publicado em 22.11.2004




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"Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim. Por que isso me era tão difícil?"
(Fragmento extraído do livro Demian de Hermann Hesse)

Esta frase que encontramos em “Demian”, um dos melhores romances do século XX e belo exemplo da genialidade literária externada pelo baluarte das letras germânicas contemporâneas que foi Hermann Hesse, exemplifica com grande exatidão e síntese um dos principais dilemas do ser humano em toda sua história: o ser.

Outra grande máxima propagada por ele: “chegar a ser verdadeiramente você mesmo” serve para corroborar a introdução acima.

Cada dia mais afundados nesta sociedade sintética, artificial, de valores e pensamentos invertidos, onde a superficialidade toma proporções e importância cada vez maiores, como se o envolvimento pleno e verdadeiro fosse uma séria ameaça a sua estabilidade, e a hipocrisia é elevada como um valor natural e necessário, o homem se afasta mais e mais de sua essência e passa sua vida inteira sustentando valores e comportamentos que representam tudo, menos o que ele realmente gostaria de ser e fazer. Não se trata de um fenômeno moderno ou algo que seja exclusividade dos tempos atuais, o quadro é antigo e conhecido. Os raros abnegados que conseguem ter uma visão mais lúcida e isenta desse mal asqueroso, as poucas pessoas que tiveram (e têm) um pouco mais de inteligência intrapessoal ao longo da história sempre foram tratados como loucos, radicais, utópicos, alienados, foram vistos como má influência, foram execrados, excluídos e menosprezados, a não ser pelos seus semelhantes.

Poderíamos jogar a culpa na manipulação exercida pela imprensa, pelo governo, pela tv, poderíamos bombardear o “american way of life” como grande bode expiatório dessa história toda, mas tudo isso é apenas resultado de algo muito mais profundo: a própria natureza humana. Cada coisa a seu tempo, cada padrão adequado a sua época, cada valor considerado benéfico ou útil quanto a sua propriedade histórica, de alguma forma, manifestada sobre qualquer máscara que seja, sempre pairou sobre o comportamento da sociedade. O próprio termo “sociedade” já evoca artificialidade de imediato, o viver em conjunto, em rebanhos, implica necessariamente adequação, pudor, cautela, medo e incerteza.

Obrigados a agir artificialmente, nos afastamos de nós mesmos e acabamos tomando rumo e direção que em nada se assemelha ao que acreditamos. Mais do que um sintoma, a hipocrisia e a artificialidade não são apenas consideradas normais como também são exigidas, esperadas e louvadas (tome como maior exemplo o mundo do trabalho) e os que vez por outra são – ironicamente – “desatentos” e acabam agindo ou falando espontaneamente são logo reprimidos e advertidos. Criou-se um mundo á parte do natural, é como se a sociedade que representasse o homem isento de dogmas comportamentais e ideológicos ficasse em outra dimensão, em outra esfera que é raramente alcançada, e o mundo “real” – onde estamos – fosse a representação sintomática dos valores que criamos e que tanto nos auto-destrói, essa sim é a “matrix” presente e verdadeira com a qual lidamos no dia-a-dia.

E esse homem que age, pensa e fala artificialmente, que sofre uma indução por assimilação destes valores desde a infância não pode nunca encontrar paz e satisfação em si mesmo, não pode nunca entender o mundo em que vive e se conformar com isso, não pode porque isso na verdade não faz parte dele, esse mundo se torna tão nauseabundo que ele passa a regurgitá-lo, a expurga-lo inteiramente de si dentro do possível e como ele não pode se ausentar disso completamente, torna-se um dilema dilacerante ter que viver em parte dentro desse mundo. É o tipo de conflito clássico que Hermann Hesse sempre tratou com maestria em seus livros, seja no Harry Haller de O Lobo da Estepe, dividido entre seu lado “homem” e seu lado “lobo”, seja no Emil Sinclair de Demian, aprendendo a viver entre o mundo “sombrio” e o “luminoso”. E é o que acontece com o Winston Smith de George Orwell em 1984, quando tem que viver entre o mundo controlado pelo partido (uma versão sombria, verossímil e ampliada do nosso mundo atual) e a vida que ele tenta viver a parte das garras do Grande Irmão, que é o jeito real de como ele gostaria de viver. A fina analogia orwelliana entre o dilema de Winston e o nosso dilema que encaramos todos os dias é o retrato perfeito de até onde podemos chegar com essa insanidade travestida de naturalidade. Tudo está tão deturpado e invertido que a espontaneidade deixou de ser o que é (e qualquer outra coisa aqui seria redundância) para ser considerada uma virtude.

Também não é de se surpreender que a internet seja encarada como a maior invenção dos últimos tempos, servindo como o ícone de uma geração que prega a liberdade e julga-se mais “cabeça-aberta” que qualquer outra, mas que na verdade se isola cada vez mais. Não é de se surpreender que essa ferramenta seja a tão alardeada “aldeia global” que vai do puro ao decrépito, que seja o meio pelo qual todas as excentricidades sexuais são externadas despudoradamente por pessoas reprimidas ou não, que faz os índices de suicídio subirem vertiginosamente (incluindo aí a nova moda de suicídio coletivo combinado on-line), tudo guiado pela certeza do anonimato, pela segurança que uma tela fria e insensível proporciona, por pessoas (mais uma vez monopolizadas – pela Microsoft - e acorrentadas – pela tecnologia) que encontraram nela a forma mais fácil e rápida de representar o que não teriam coragem de fazer na prática (ou o que não são), a internet é, sob muitas formas, a artificialidade elevada como exemplo máximo de uma civilização e é essa a maravilha tecnológica celebrada exaustivamente pela sociedade no século XXI.

Com efeito, a religião, que sempre passou ao largo de sua concepção semântica (religare) de religar o homem á Deus, ou de religar o homem a ele mesmo (seguindo a corrente de linhas ideológicas orientais), sempre contribuiu significativa e decisivamente na segregação, por mais compreensiva e atrativa que ela possa se apresentar, sempre chegamos a um fator comum a todas elas: a condição básica de pertencer ao seu mundo, aos seus ritos, a sua doutrina. Condição essa que anula completamente sua origem e expõe uma grande contradição que nenhuma delas pode fugir. Nessa linha restritiva, exclusiva e impositiva, onde todas julgam a sua verdade ser a suprema, a definitiva, a absoluta, por mais que neguem acabam pondo em prática o preconceito que tanto “combatem”. O homem transformou o mandamento de “amar ao próximo como a ti mesmo” em “amar apenas os seus semelhantes”, dessa forma cada grupo isolado se ama mutuamente e odeiam-se entre si. O que me faz concordar com Nietzsche quando ele diz que “o único cristão (possivelmente o único “ser humano”) de verdade morreu na cruz”. E a religião (não somente o cristianismo) morreu com ele.

Depois de tudo isso fica a pergunta: o homem deixou de agir espontaneamente por que ele próprio criou o ambiente para isto ou o fez porque não pôde fugir á sua natureza?

Por um lado poderíamos dizer que a sociedade, a necessidade de viver em grupo incutiu em seu comportamento o medo, a insegurança e a falsidade, impedindo-o de agir naturalmente e “ser” como verdadeiramente cada um é, mas o homem não foi criado para viver (ou vive desde o inicio dos tempos) em sociedade? Não foi ela que proporcionou o aperfeiçoamento da raça humana? O que acontece então? Encontramos resposta no que bem salientou George Orwell em 1984: “No fundo, só importa a gente”. A traição mútua entre Winston e Júlia é na verdade o mais puro comportamento humano destituído de máscaras, é o que sempre acontece e ninguém tem coragem de admitir, por isso esta parte do livro dói tanto em todos nós.

O fruto desse amontoado de conceitos danosos que são incutidos lentamente ao longo de nossas vidas (uma espécie de hipnopedia desperta), que dentre outros sintomas podemos destacar a revolta e o inconformismo (tão presentes nos jovens) podem se tornar inerentes à personalidade de cada um a partir do momento em que se toma consciência da máquina repugnante em que estão inseridos e passa-se a questionar o porque de tudo isso. È o “nascer de novo” de Hermann Hesse, este sim é o verdadeiro renascimento que o ser humano precisa, quando saímos da inocência pueril de nossa infância e passamos a fazer parte efetivamente da sociedade é quando tomamos o choque mais brutal de nossa existência. Mas isso não está atrelado a um conceito de tempo pré-determinado – pode acontecer nas mais variadas idades possíveis – e infelizmente nem todos conseguem (ou querem) nascer de novo, ou porque já foram tão absorvidos pelo sistema que não conseguem enxergá-lo de forma isenta ou pior, pessoas que têm consciência de tudo que se passa mas escolheram viver no engano, na hipocrisia, por definitivamente ser muito mais cômodo e fácil. Mudança implica dor, luta, sofrimento e reflexão, já o conformismo é apresentado como um açucarado mundo de ambição, prazer, desejo e facilidades, o mundo onde “tudo é bom”, o mundo onde não se precisa mudar para “ser feliz” e o espírito crítico é encarado como frescura de intelectuais pessimistas. O sistema está dizendo sedutoramente para você: “Nos encontraremos num lugar onde não há trevas” e você cai, cai facilmente, vai correndo satisfeito copular com o inimigo.

É o que acontece em 1984 com os membros do partido que aceitam plácida e cegamente as doutrinas do IngSoc, onde tudo para eles é justificável, onde o erro sempre decorre de si próprio, não do partido (ou no caso, do sistema), situação bem ilustrada pela devastadora descrição da prisão de Parsons, onde ele reflete debilmente sobre os motivos que o levaram a ser preso, chegando a louvar ainda mais a onisciência infalível do Grande Irmão, Parsons não representa apenas o quanto o ser humano pode ser condicionado, mas torna-se uma ilustração fidedigna das pessoas que estão (ou optaram por estar) vivendo em sincronia com as instituições e com os valores que lhe foram apresentados (como diria O’Brien, será que eles também não te pegaram há muito tempo?).

O ser não é apenas nosso maior dilema, é também nosso maior medo, a decisão capital que temos que tomar diante da qual deriva-se todas as outras.

A clássica frase dita por Hamlet de Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão?” parece ter pouco ou nenhum significado em conseqüência da vã e exaustiva citação que lhe é feita.

Mas seu poder de síntese diante do comportamento humano é fantástico. Ela é na verdade o “day past” da indagação presente no início desse artigo feita pelo Emil Sinclair de Hesse. Quando decidimos “ser” nós mesmos é aí que vamos nos deparar com a profunda dificuldade decorrente disso, é quando vamos nos perguntar porque é tão difícil ser, porque é tão difícil para nós agirmos naturalmente, é quando nós (e não mais Sinclair) nos perguntamos: "Por que me é tão difícil viver espontaneamente o que brota dentro de mim?".

E só conseguimos fazer essa pergunta porque nascemos de novo, nós na verdade só a fazemos quando temos consciência suficiente para tal. Voltando a Demian, não por acaso, bastou uma fala espontânea de Sinclair para que ele visse sua amizade com Pistórius ser profundamente abalada. O interessantíssimo paradoxo que Hermann Hesse coloca neste trecho ilustra o preço que temos que pagar por sermos nós mesmos.

Você já pensou se está disposto a pagar este preço?

O Winston Smith de George Orwell foi preso, torturado, humilhado, sofreu lavagem cerebral, foi obrigado a fazer tudo que o Partido queria. O Selvagem de Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo viu-se obrigado a se isolar daquela sociedade pseudo-perfeita por não concordar com sua doutrina, ou seja, se isolou para poder viver como queria, foi descoberto, tratado como atração turística e acabou suicidando-se e o Emil Sinclair de Hermann Hesse foi execrado por sua família e teve que passar por um longo e doloroso processo para definir sua verdadeira personalidade.

Todos eles pagaram um preço muito alto por serem eles mesmos e para chegar lá tiveram que passar por uma auto-descoberta fundamental, todos eles renegaram os valores que lhes foram impostos e agiram de acordo com o que sua verdadeira essência exigia. Todos eles, em suma, isentos de qualquer influência nefasta, tentaram viver espontaneamente o que brotava dentro deles. E todos tiveram que pagar o preço por isso. Será que você está preparado para ser excluído, humilhado, menosprezado e taxado de louco? Será que você teria coragem de abandonar seu emprego, estremecer relações, comprar brigas e angariar inimigos para ser você mesmo? Você acha que vale a pena pagar o preço por isso?

Agir como um zumbi, aceitar tudo sem pestanejar, encarar as coisas com naturalidade e fazer parte desse mundo que é muito mais fictício do que real é fácil, se deixar levar pelo frenesi do dinheiro, do status, do poder, querer fazer parte da elite – seja ela qual for – é o que todos querem e pode até ser que você escolha esse caminho e seja “feliz” – não se sabe até quando – dentro dele. Já ser você mesmo é muito, muito difícil, implica uma luta interior constante que nem todos estão dispostos a encarar. Se você ainda não renasceu, enfrente a verdade de que você nunca nasceu até então, se você não consegue agir espontaneamente é porque você nunca conseguiu demonstrar a sua real essência, o seu eu verdadeiro. Não acho que o homem seja uma pequena divindade ou que seja auto-suficiente, longe disso, mas se não olharmos para dentro de nós e procurarmos agir de acordo com o que somos, é porque nós nunca existiremos de verdade (ou como diria George Orwell, seremos vaporizados). Temos que parar de encarar a espontaneidade como virtude e ver que ela deveria ser inerente a todos nós, foi a humanidade que inverteu as coisas, foram os homens que construíram esse mundo fétido que você vê a sua volta, somos nós, somente nós os culpados por tudo isso. E da mesma forma, cabe apenas a nós reconstruí-lo da forma correta.

Parafraseando Jesus Cristo, eu diria: “Ide ao mundo e pregai a verdade, a espontaneidade a toda criatura”! Estas últimas palavras de Hermann Hesse que irei citar (também retiradas de “Demian”) além de ser o supra-sumo do desejo e inspiração que me sobreveio para escrever este artigo, representa a quintessência do que realmente importa para o ser humano, deixo-os com o mestre:

"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir: ser é ousar ser."

Livros citados pelo autor do artigo:

Livro Demian - HERMANN HESSE
Livro 1984 - Edição Comemorativa - GEORGE ORWELL

Leia o Especial George Orwell.


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