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Genialidade britânica à serviço do ser humano
Maurício Gomes Angelo - Publicado em 24.02.2005




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Quando a banda mais cerebral da história se inspira num dos escritores mais relevantes do século XX, o resultado só poderia ser a obra prima musical e conceitual que é “Animals”, 10º álbum de estúdio dos gênios ingleses do rock progressivo, lançado em 1977.

Donos de uma riquíssima história, a banda “Pink Floyd” – nome surgido da junção dos nomes de dois bluesman admirados por Syd Barret – pode ser considerada a responsável pelo surgimento do chamado “rock progressivo”, tendo seu ano de “fundação oficial” em 1967. Estilo marcado por letras profundas, músicas relacionadas entre si, arranjos complexos, instrumentos exóticos, técnica exacerbada e acima de tudo muito experimentalismo. O que mais caracteriza o rock progressivo é a tentativa de não se prender a nenhum estilo ou regra predeterminado. Fora o Pink Floyd, podemos destacar como grandes expoentes grupos como Yes, Emerson, Lake & Palmer, Genesis, King Crimson, Rush, Marillion e Jethro Tull.

Formado inicialmente por Syd Barret na guitarra e vocais, Roger Waters no baixo e vocais, Nick Mason na bateria e Rick Wright nos teclados, o Pink Floyd se caracterizou desde o início pela sua incrível capacidade de inovação e pela sua imensa criatividade. Planejados e comandados por Syd Barret (que além de músico e compositor era também poeta, pintor e artista performático) os shows do Pink Floyd eram muito mais do que apenas espetáculos sonoros. Usando truques simples de luz e projeção de slides eles reproduziam em palco os efeitos de viagens de ácido tão comuns na época, incorporando o termo “psicodelismo” ao seu estilo de música. Os shows iniciais logo atraíram um público underground composto de poetas e ativistas políticos e acabaram chamando a atenção da indústria musical. Atordoado por problemas mentais que foram potencializados pelo exagero no uso de drogas, Syd Barret foi logo afastado do grupo dando lugar para a entrada de David Gilmour, que viria a ser considerado um dos melhores guitarristas da história além de excelente vocalista.

O divisor de águas da história da banda e álbum apontado como sua maior obra prima foi “The Dark Side Of The Moon”, lançado em 1973. Valendo-se de técnicas inovadoras e moderníssimas de estúdio e apresentando um excelente trabalho conceitual, que vai da histórica capa até o primor de clássicos como “Money” e “Time”, o álbum vendeu mais de 30 milhões de cópias, permanecendo mais de vinte anos entre os mais vendidos, obrigando a EMI a construir fábricas especialmente para prensá-lo e entrando para o Guiness Book. Sendo famosos também por suas inesquecíveis e singulares apresentações ao vivo, que introduziram conceitos, técnica e concepções que seriam inspirações para inúmeras bandas e também para a própria indústria. Mas a influência de George Orwell só viria a ser externada mais claramente em 1977 com o álbum Animals. Baseando-se no livro “A Revolução dos Bichos”, que retrata as contradições e injustiças da sociedade capitalista, “Animals” foi dividido em 5 peças: “Pigs On The Wing I”, “Dogs”, “Pigs (Three Diferent Ones)”, “Sheep” e “Pigs On The Wing II”.

Para a concepção da capa que viria a se tornar um novo marco para a área, o Pink Floyd mandou construir um artefato gigantesco em formato de um porco que seria preenchido com gás hélio, o artefato foi construído pela Ballon Fabrik na Alemanha, a mesma companhia que fabricava os famosos Zepelins. A capa (que vocês podem ver ao lado) é constituída de duas fotos, a primeira da usina elétrica Battersea Power Station, instalada às margens do rio Thames e a segunda, do “dirigível suíno”. Além da grande quantidade de hélio usada para colocar o imenso artefato no ar, o fato curioso é que o porco acabou se soltando do cabo que o prendia e passou a flutuar livremente no céu! Avistado por pilotos, foi dado o alarme de que um porco cor de rosa com mais de 40 pés e voando a mais de 18 mil pés de altura estava flutuando sobre Londres e indo em direção a Alemanha. Por sorte, ele desceu ainda na Inglaterra, na cidade de Kent. As imagens capitadas no insólito episódio serviram para a divulgação do álbum e foram usadas também nos shows.

O disco, gravado em moderníssimos estúdios europeus, apresenta (como de praxe em se tratando de Floyd) uma sonoridade revolucionária tanto artística quanto tecnicamente falando. A crítica da época torceu o nariz classificando o trabalho como “hermético demais” mas os fãs amaram e aprovaram em todos os aspectos. Concorde você ou não com o ditado de “vox populi, vox dei”, “Animals” é irrepreensível do primeiro ao último segundo e em todos os detalhes que você quiser analisar. Fruto de uma fase onde a sincronia e o entendimento na banda ainda era perfeito, as arrebatadoras melodias, os solos fabulosos de Gilmour e as linhas vocais hipnotizantes de Waters eram complementadas pelas letras geniais inspiradas em George Orwell. Assim diz a letra de “Pigs On The Wing I”, a música que abre o trabalho:

“Se você não se importasse com o que aconteceu comigo,
E se eu não me importasse com você
Nós iríamos fazer zig zag em nosso caminho
Através do tédio e da dor
Ocasionalmente espiando a chuva
Desejando saber qual dos vagabundos culpar
E observando os porcos voarem.”

As letras da banda sempre foram o retrato mais fiel de sua essência. Capitaneadas por Roger Waters, que foi o principal compositor e tendo Gilmour como eventual parceiro (que mais tarde viria a demonstrar mais incisivamente seus dotes com tal), Waters sempre usou as letras da banda para tratar sobre assuntos que tocam diretamente em qualquer um de nós. Usando-se de usa fina ironia e sarcasmo, divagações sobre o dinheiro (como em Money: “Com um salário melhor você fica OK/ Dinheiro, é um combustível/ Agarre essa grana com as mãos e esconda-a/carro novo, caviar, quatro estrelas, sonhar acordado (...) Dinheiro, é um crime/Divida-o de um modo justo/Mas não pegue um pedaço da minha torta/Dinheiro, assim eles dizem/É a raiz de todo o mal hoje em dia) ou sobre a vida com cunho psicológico e existencialista, como em Time:

“As horas passam marcando os momentos
Que se vão, que formam um dia monótono
Você desperdiça e perde as horas
De uma maneira descontrolada
Perambulando num pedaço de terra
Na sua cidade natal
Esperando alguém ou algo
Que venha mostrar-lhe o caminho

Cansado de deitar-se na luz do sol
De ficar em casa observando a chuva
Você é jovem e a vida é longa
Há tempo de viver o hoje
E depois, um dia você descobrirá
Que dez anos ficaram para trás
Ninguém te disse quando correr
Você perdeu o tiro de partida

E você corre e corre para alcançar o sol
Mas ele está indo embora no horizonte
E girando ao redor da Terra para se levantar
Atrás de você outra vez
O sol permanece, relativamente, o mesmo
Mas você está mais velho
Com o fôlego mais curto
E a cada dia mais próximo da morte

Cada ano está ficando mais curto
Nunca você parece ter tempo.
Planos que tampouco deram em nada
Ou em meia página de linhas rabiscadas
Insistindo num desespero quieto
É a maneira inglesa
O tempo se foi, a canção terminou
Pensei que tivesse algo mais a dizer”.

Suas letras sempre foram o reflexo de sua vida, sua história e suas divagações e de todas as influências que contribuíram para desenvolver nele o senso crítico e a observação contundente do mundo e da sociedade. Tendo o pai morto na Segunda Guerra Mundial e vivenciando todo o cenário fervilhante e frutífero da Inglaterra nos anos 60 e 70 onde George Orwell exerceu profunda influência, “Animals” veio no momento certo onde a banda se via dividida entre seu imenso sucesso comercial (segundo as estatísticas, o Pink Floyd foi a maior banda de rock em se tratando do número total de discos e ingressos vendidos), apresentando concertos em estádios gigantescos onde segundo o próprio Nick Mason “se perde o controle e o sentido das coisas” além da conseqüente fama advinda disso e suas origens e princípios que se viam sufocados pela indústria do dinheiro e da futilidade vendida como arte, eles encaravam uma espécie de contradição semelhante a vivida pelo Winston Smith de George Orwell, onde mesmo não concordando sob nenhuma forma e tendo profundo ódio contra a máquina do Grande Irmão, ele se via naturalmente obrigado a conviver entre os seus princípios e o mundo que o cercava. Da mesma forma, a banda se via refém de sua própria qualidade e genialidade, tendo que transitar no podre mundo das gravadoras e das aparências, que eles faziam questão de denunciar e criticar com muita propriedade em suas músicas, onde se tem vários exemplos disso em suas letras. “Animals” foi a ponte de ligação que iria culminar no auto-biográfico e maior ópera rock de todos os tempos, rendendo filme (e mais recentemente uma peça teatral da Broadway) e uma turnê com concepção de palco revolucionária que foi a obra “The Wall” de 1979.

Como Waters primeiramente declarou: "Numa banda de rock, você está numa situação privilegiada. Você tem poder, muito dinheiro e glamour. Fazer parte de uma grande banda de rock é como estar em uma jaula. É esse tipo de descoberta e exorcismo que está em The Wall." E posteriormente, numa entrevista concedida á revista Bizz em 1990, elucidou mais a fundo o conceito por trás de The Wall:

“A idéia original de fazer uma peça teatral com The Wall veio do meu sentimento de alienação ao fazer shows em estádios. Em 1977 (na turnê do Animals), com o Floyd, fiz uma turnê americana que era grande o bastante para lotar dois estádios. Fiquei cada vez mais desencantado com a coisa toda porque parece que rock'n roll em estádios tem a ver com grana e com nenhuma outra coisa. Talvez seja um ritual tribal subliminar, misturado a um grande movimento de dólares. E isso é atraente não só para a performance em si, mas parece que para o público também. Há uma parte perversa da natureza humana que gosta de se esmagar entre oitocentas pessoas, ficar em pé até não agüentar mais, não ter nada para comer ou beber, sentir-se desconfortável e não ser capaz de ouvir nem ver nada. É muito estranho. Daí pensei: “farei um show e construirei uma parede na frente do palco (uma das paredes usadas na pequena turnê tinha seis andares de altura e duzentas jardas de extensão, o aparato de palco era tão grande que a turnê acabou dando prejuízo para a banda), e, quando a parede estiver terminada, aqueles bastardos saberão do que estou falando (risos)”. Pensei nisso e adorei a idéia. Então comecei a me perguntar por que estaria nessa vida de showbizz, por que a construção da parede, por que ela veio, por que eu estaria naquela posição. Comecei a trabalhar em estilo autobiográfico. Na verdade, a idéia é que, no começo, eu e todos aqueles que são músicos e todos aqueles que fazem parte do público estão nessa bela comunhão, em que alguns de nós escrevem e tocam música e outros sentam-se e ouvem. Uma metáfora da vida numa situação inocente, o Jardim do Paraíso para todos. Então coisas acontecem durante nossas vidas e nos tornamos alienados. A parede se levanta por causa de professores autoritários ou mães dominadoras, ou problemas com sua esposa, ou qualquer outra coisa. Uma vez que estamos atrás da parede, caímos na total falta de contato com os outros seres humanos e nos tornamos monstros, retratados em The Wall através do delírio fascista, o neo-nazismo britânico. Quando voltei ao trabalho, fiquei surpreso como isso estava enraizado na cultura britânica. No final, Pink (também o nome do personagem da história) acaba no National Front (grupo britânico de ultradireita). O começo é uma premonição. "In the Flesh" diz: "Olha, isso é o que acontece no final da história !" - quando um bando horrível de fascistas chega fazendo coisas bem não-Pink Floyd, bem não-eu. Então eles congelam e desaparecem. Daí voltamos para o começo da história, que é a morte do pai do protagonista na Segunda Guerra Mundial. A história se desenrola a partir daí, vagamente cronológica, através da infância, dos dias escolares, da adolescência, e então casamento, caindo na estrada, e finalmente colapso e degeneração, de volta à massa fascista do começo, só que pior. A virada de toda a história vem no final, quando o protagonista não agüenta mais ser um bastardo e decide se analisar. A cena final do julgamento representa seu superego julgando o seu ego, e acusando-o. Mas a sentença é destruir a parede e expor seus sentimentos verdadeiros. No final ele consegue se sentir humano e é a salvação. E eu me salvei !”

Como podem ver, o conceito exposto em The Wall, e previamente em Animals, não era apenas um grito de repugnância contra o sistema, contra as bandas que se acham deuses em decorrência do sucesso e contra os fãs que ficam alienados e fazem qualquer loucura pelos seus ídolos, era a reflexão de alguém que estava vivenciando todo esse cenário megalomaníaco e um belo dia pára e pensa: “Ei, que porra é essa?” e tem a coragem de enfiar o dedo não apenas na própria ferida mas na ferida de todos e de tudo que está a sua volta. Não se restringindo apenas ao seu mundo, as letras da banda são de profunda crítica e análise da sociedade e de tudo que contribui para nossa formação desde a infância, de como esses valores exercem tanta influência em nós, do questionamento destes valores, de como nos tornamos tão sintéticos e inumanos em decorrência disso e do que fazer para sairmos dessa teia asquerosa e ter um pouco mais de independência em relação à sujeira que nos rodeia.

É impossível desvencilhar a banda de suas composições líricas e “Dogs”, presente em Animals, não só é uma das letras que melhor exemplifica a influência de Orwell (e mais especificamente de “A Revolução dos Bichos”), como também é uma das melhores letras de toda a história da banda, assim ela diz:

Você precisa ser louco, você precisa ter um motivo de verdade
Você precisa dormir sobre seus dedos do pé
E quando você estiver na rua
Você precisa ser capaz de distinguir a carne fácil
Com seus olhos fechados
E depois se movendo silenciosamente
Contra o vento e escondido
Você precisa bater
No momento certo e sem pensar.

E depois de um tempo, você pode trabalhar em pontos da moda
Como o clube da gravata, e o clube “firme aperto de mão”
Um certo olhar fixo nos olhos, e um sorriso fácil
Você tem que passar confiança para as pessoas que você mente
Para que quando elas virarem as costas para você
Você tenha a chance de esfaqueá-las.

Você tem que manter um olho sempre aberto
Você sabe que isto está ficando cada vez mais difícil, difícil e difícil
Conforme você envelhece
E no fim você arrumará as malas, e voará em direção ao sul
Esconderá sua cabeça na areia
Apenas outro triste e velho homem
Sozinho e morrendo de câncer.

E quando você perder o controle,
Você irá colher o que tem plantado
E á medida que o medo cresce,
O sangue ruim pára de correr e endurece
E é tarde demais para soltar o peso
Você costumava jogá-lo por aí
Então se afogue, enquanto você afunda sozinho
Arrastado para baixo pela pedra.

Tenho que admitir que estou um pouco confuso
Às vezes me parece que eu estou sendo usado
Preciso ficar acordado,
Preciso tentar e sacudir esse mal-estar rastejante
Se não estou pisando em meu próprio chão,
Como posso encontrar a saída deste labirinto?

Surdo, mudo e cego, você apenas continua fingindo
Que todo mundo é dispensável
E ninguém teve um amigo de verdade
E parece que para você
A solução seria isolar o vencedor
E você acredita de coração, que todo mundo é um assassino.

Quem nasceu numa casa cheia de dor?
Quem foi educado a não cuspir no ventilador?
Quem foi que disse o que devemos fazer pelo homem?
Quem foi à falência através de pessoal treinado?
Quem estava usando colarinhos e correntes?
Quem cedeu um assento no banco das testemunhas?
Quem estava fugindo do público?
Quem estava sozinho em casa com um estranho?
Quem foi triturado no final?
Quem foi encontrado morto ao telefone?
Quem foi puxado para baixo pelas pedras?

Reflexos de uma banda que usou com toda propriedade e domínio o poder que lhes foi dado, que externou seus medos e problemas e procuraram, pela individualidade de cada um, dar vazão a tudo de mais profundo e significante que seu público poderia esperar. Características que podem ser estendidas á brilhante e visionária mente de Eric Arthur Blair – George Orwell, indiano e inglês, cidadão do mundo, mas antes de tudo, um ser humano extraordinário. Dois expoentes britânicos, cada um ao seu tempo, cada um da sua maneira, que com sua contribuição e influência eterna, deixaram profundas lições a serem aprendidas.

Referências Bibliográficas:
Site Whiplash!
Revista Bizz, 1990.
Agradecimentos á Fernando P. Silva.

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