Parabéns, mestre! - artigo em homenagem ao 102º aniversário do escritor George Orwell < George Orwell < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 


 


Homenagem ao 102º aniversário de George Orwell, escritor britânico autor de 1984, A Revolução dos Bichos e outros clássicos.
Maurício Gomes Angelo - Publicado em 25.06.2005




Publicidade


“O meu ponto de partida é sempre um sentimento de partilha, uma noção de injustiça. Quando me sento para escrever um livro, não digo para mim “vou produzir uma obra de arte”. Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar atenção, e acredito sempre que vou encontrar quem me ouça. Mas não seria capaz de escrever um livro ou um longo artigo de revista se não existisse nisso também uma experiência estética”.

Este depoimento, presente na contra-capa da 29º edição de 1984, dá uma noção exata do que movia George Orwell. O pressuposto da obra orwelliana é o mesmo pelo qual este site se baseia. Por sermos um veículo livre, completamente liberto de qualquer amarra mercadológica, ideológica ou institucional (se isto interessar aos estimados leitores, eu, Maurício Gomes, nunca recebi nenhuma orientação restritiva), por não termos compromisso com nada, a não ser com nosso público, nossa idoneidade e a reflexão completa e profunda sobre todos os temas que nos cercam, podemos empreender uma busca empírica tal qual a de Orwell, e, igualmente, sem esquecer o aspecto estético.

Somos pré-orwellianos e pós-orwellianos. Pré, porque nossa gama de estudos e referências datam de infindáveis outras épocas e temas que não possuem ligação direta com a obra de Blair. Pós, porque toda nossa reflexão presente está indissociavelmente impregnada das geniais percepções deste mestre britânico.

Hoje Eric Arthur Blair completaria 102 anos, ao mesmo tempo, este inegável discípulo inteira 18 anos de vida. Não preciso nem dizer que fui invadido por uma estúpida sensação de alegria ao saber desta significativa coincidência. Afora essa peculiaridade, este artigo é um simples e genuíno meio de exaltar, saudar e ratificar a obra de Orwell. Ele não estava apenas à frente de seu tempo, foi dono também do olhar mais profundo, crítico, sagaz e verossímil da humanidade. A traição dos ideais socialistas, a ascensão de Stalin, o avanço do capitalismo, a desumanização do novo mundo, sua experiência prática na Guerra Civil Espanhola, como proletário, professor... tudo em Orwell exala realidade, tem cheiro de sangue, de luta, é necessariamente doloroso, atemporal, toca em pontos inadmissíveis para o sistema e para o ser humano num todo, por isso seus escritos ferem, inspiram e libertam tão facilmente.

Blair morreu cedo, excessivamente cedo. Tuberculoso, numa época em que tal doença ainda representava risco iminente de morte, foi-se aos 47 anos de idade em 1950. Não há como deixar de pensar no que faria de sua existência se lhe tivesse sido concedido mais tempo de vida, quais mentiras o carimbo de sua veracidade desconcertante iria atingir. Contudo, é incrível constatar como – mesmo morrendo jovem – deixou uma obra tão completa e abrangente. Quando encaro “1984”, dificilmente vejo algo que não foi tratado ali, alguma peculiaridade política, social, humana, psíquica, que escapou ao olhar de Blair, é como se séculos de nossa história e grande parte do que nos concerne, fosse resumida por algumas centenas de páginas.

Tal obra possui aquela faculdade inextinguível de lhe surpreender, instigar, vivificar e mortificar ao mesmo tempo, trazer coisas novas, explicitar antigas, vislumbrar outras, de tornar-se uma aventura única, inesquecível e reveladora a cada vez que se lê. “1984” foi um dos poucos livros que desferiram golpes profundos em meu peito, obrigando-me a fechá-lo temporariamente para me recompor depois, fazendo com que brotasse aquela exultante concordância diante do que era apresentado. É simplesmente a materialização de nossos sentimentos perante o mundo. O que outros autores tentam fazer durante anos em milhares de páginas prolixas, Orwell fá-lo em apenas um parágrafo, destrói com seu olhar penetrante e avassalador, deixa todas as bases para idéias a serem desmembradas posteriormente. Consegue incorporar o ofício de filósofo e escritor ao mesmo tempo, ataca com subjetividade e clareza, turvamento e explicitação. Se tivesse que traçar paralelos, diria que é impossível ser mais universal que Shakespeare, poético que Goethe, pungente que Dostoiévsky, revolucionário que Marx, introspectivo que Freud, sublime que Joyce, (...) e mais perspicaz e autêntico que Orwell.

O “parabéns” do título não se trata apenas de mera convenção social, mas antes, significa uma saudação de intensa reverência, admiração, inspiração e agradecimento.

Os escritos deste inglês transformam, revolucionam. Simbolizar a significância disto aqui é de natureza inefável.

Dizer “descanse em paz” seria ultrajante e leviano, pois Orwell nunca descansou, nunca desapareceu, da mesma forma que nós nunca descansaremos, nunca nos deixaremos abater pelas chagas deste mundo, nunca esqueceremos de denunciar suas contradições, suas atrocidades, sua injustiça. Seu legado será humildemente levado adiante, trespassando gerações e gerações com inquietude genuína e soluções eficazes, até alcançarmos a vitória, seja em que época for. Abençoados por sua destra, nos levantamos e lutamos. Preparados e conscientes. Munidos da crítica voraz e construtiva. Não renegamos nossa herança, mas sobriamente nos apossamos dela para a construção de um novo mundo. Obrigado Eric Arthur Blair. A centelha de sua criação se propagará através dos séculos.


[+] Envie este artigo para um amigo: