Mil novecentos e oitenta e quatro, de George Orwell, e a atualidade < George Orwell < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
 


Simone Martins - Publicado em 06.07.2005




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Narrada com imagens futuristas e dose de empirismo, Mil novecentos e oitenta e quatro, aborda questões muito relativas às situações atuais. Pode-se dizer que a transformação da realidade, tema central do romance, é o retrato da atualidade. No livro, o personagem principal Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, altera dados e reportagens, de acordo com os interesses do partido, uma maneira de manipulação muito encontrada nos dias atuais, pela mídia (revistas, jornais, programas de tv, novelas, noticiários, etc).

As características do romance, muito bem contadas por Orwel, dão-nos está visão de futuro em que vivemos, como as teletelas (O Big Brother), a Novilíngua (Newspeek), a Divisão de Classes e o Livro de Goldstein. No caso das teletelas, se olharmos isoladamente, parece-me que Orwell estava tendo uma visão de que no futuro as pessoas ficariam escravas da tv, sendo facilmente manipuladas, exatamente como acontece nos dias de hoje e no livro. Nesta visão, ele já deu a entender de que a tv seria um excelente veículo de comunicação em massa e de fácil acesso à vida íntima das pessoas. Quem, naquela época, poderia prever uma tv em cada cômodo da casa? Acordar com alguém lhe chamando para fazer ginástica? Ou receber notícias “online”? Sem contar que hoje em dia assistimos tv deitados na cama, ou de dentro do carro, ou tomando café da manhã, ou jantando, ou na faculdade, em qualquer lugar onde haja tv. E onde não há uma tv?

Falando em comunicação uma característica muito marcante da obra é a novilíngua, que eu vejo com uma relação ainda mais forte com os dias de hoje, digamos que foi quase uma profecia, pois se o objetivo da implantação do novo idioma, em 1984, era de reduzir o vocabulário para diminuir a capacidade de pensamento, o que dizer da linguagem usada pelos internautas para se comunicar? E das gírias utilizadas pelos diversos grupos, variando conforme a procedência, musical (rap, funk, pagode, etc), esportiva (surf, skate, etc), enfim, logo teremos tantos dialetos que nossa sociedade irá se transformar em uma torre de babel, se já não se transformou.

Quanto à divisão de classes, isto eu posso afirmar com convicção, continua igual como era naquela época, em 1948, pelo menos no Brasil posso dizer que sim. Pois, está hoje igualmente como Orwell descreveu no livro. Lógico que, para ele que abdicou da sua posição social e vivenciou tantos períodos de conflitos, a grande depressão e o racionamento, acredito, que fica mais fácil prever. Pois, qualquer sociedade que adote um sistema totalitário, seja ele nazista, comunista, imperialista, terá tais conseqüências, ou seja, esta sociedade se tornará um “grande funil” onde poucos terão oportunidade de se desenvolver, e estas poucas oportunidades, serão só para aqueles que estão altamente preparados, exatamente como acontece hoje.

No caso do Livro de Goldstein e do próprio Big Brother (Grande Irmão), vejo que Orwell, queria nos alertar quanto aos líderes ou ditadores que tivemos, temos e teremos. Ditadores e loucos, como o personagem O’Brein, que acreditam nas suas próprias doutrinas (ou mentiras) com tanta convicção que conseguem convencer exércitos de homens e mulheres, e os levam para os campos de batalha ou cidades de batalha, lutam e perdem suas vidas por questões que não lhes pertencem. Na época, em 1948, o Big Brother foi comparado a Josef Stalin e Goldstein a Trostky. Porém, atualmente podemos citar alguns ou vários que não deixam a desejar a nenhum dos citados líderes de 1984, como Saddam Hussein, Osama Bin Laden e nada mais nada menos que George W. Bush, que com argumentos nada convincentes, conseguiu reeleger-se por mais quatro anos.

Isto nos faz refletir sobre as questões citadas anteriormente a respeito da mídia, manipulação, etc. Quantos traumas e quantas torturas teremos que passar para conseguirmos ter paz? (Como Winston sofreu durante romance). E a pergunta que não quer calar – O Big Brother existe? Osama Bin Laden existe? Ou é apenas um “marketing” para nos coibir?

Apesar de George Orwell ter escrito uma distopia (utopia negativa), como citam alguns críticos, eu insisto em dizer que apesar de ser uma crítica referente aos acontecimentos do ano de 1948, essa “distopia” seria uma forma de abrandar ou mascarar uma total falta de esperança em relação às gerações futuras, por serem passivas às formas totalitárias de poder, pois em suas duas últimas obras nota-se que não há meio de vencer os sistemas totalitários, pois quando ele ainda não está instalado, por mais puro que seja o indivíduo, esse é tomado aos poucos pela ambição, ganância e a todos esses sentimentos inerentes ao homem, fazendo-o aceitar o sistema gradativamente e de maneira que não consegue mais se livrar dele.

Avaliando a minha posição diante disto, vejo-me como Winston, sinto que não pertenço à prole, de certa forma sou privilegiada, estou estudando, tenho alguma cultura, ao menos me esforço para isso, moro em casa própria e o mais importante de tudo isso: tenho opinião própria. Porém, assim como Winston, tenho “duplopensamento” conheço as duas crenças não luto por nenhuma, então é sinal que aceito ambas. Isto seria hipocrisia? Não acredito nisso.


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