Lula é Napoleão? (A Revolução dos Bichos) < George Orwell < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 


 


Maurício Gomes Angelo - Publicado em 04.07.2005




Publicidade


É importante ressaltar que Maurício Gomes Angelo não está ligado a nenhum partido, não é simpatizante de nenhuma sigla, nunca militou de nenhum dos dois lados, não tem afinidade ideológica com o que quer que seja e não deve fidelidade e favores a ninguém. Devido a sua idade, ele sequer pode votar nas últimas eleições presidenciais. Portanto, particularmente, não considera ter sido traído, logrado ou enganado por nenhuma pessoa ou entidade. Sua análise e reflexão aqui representada são de origem puramente imparcial, de observação e sentimento com tudo que vem ocorrendo em seu combalido país. Seu único compromisso consiste em ser honesto e impiedoso.

Para os mais sagazes e inteirados, já ficou claro que o “Napoleão” do título não é o famoso imperador francês, mas Napoleão, o porco, líder da Granja dos Bichos, personagem principal da fábula “Animal Farm” de George Orwell.

Sim, este texto fará muito mais sentido (e será imensamente mais divertido, mais incisivo, mais ácido) se você já tiver lido “A Revolução dos Bichos”, de qualquer forma, se ainda não o fez, é de uma valia incalculável que o faça. No entanto, o sinal verde está dado para todos aqueles que quiserem refletir. A referência a esta fundamental obra de Orwell é mais do que apropriada e a sua semelhança com o que vem acontecendo é assustadoramente3 (ao cubo mesmo) real.

Há uma onda quase unânime de ataque ao governo petista no ar. As palavras “autoritarismo” e “obscurantismo” estão na moda. Qualquer ação, idéia, proposta, pensamento, espirros e derivados do governo Lula servem de base para toda uma teoria conspiratória de fim do mundo, volta à ditadura e/ou tempos da idade média, fala-se também na possibilidade do Brasil se tornar uma nova Cuba (alguns acreditam cegamente nesta hipótese). Aliás, teorias da conspiração são o que não falta, a mais impagável que conheço diz respeito aquela tese de que o presidente faz parte de uma organização internacional que congrega numa mesma assembléia ele, George W. Bush, Fidel Castro, Hugo Chávez, Kofi Annan, Tony Blair, Jaque Chirac, Silvio Berlusconi, Ariel Sharon e alguns terroristas, de modo que todos os seus atos são de comum acordo e as tradicionais desavenças são apenas para manter o jogo encoberto. E como sempre existem provas irrefutáveis de que isso é verdade. O que o encontro do ócio com uma mente fértil não faz hein?

Realmente impressionante. Mas voltando para o Planeta Terra, há uma comoção nacional em potencializar qualquer deslize do PT em algo grandioso, catastrófico, em se fazer a maior desgraça possível em cima de outra, o Brasil clama por involução, a imprensa quer provar de qualquer jeito que as reuniões do partido são realizadas em algum canto dos confins do inferno. Claro, o exagero é geral. Mas, também não podemos negar que há algo de verdadeiro nisso e algumas coisas não cheiram nada bem. Uma das perguntas fundamentais a ser feita é se toda essa falação e cobrança incisiva e odienta, todo esse estardalhaço é feito único e exclusivamente com a preocupação de proteger as instituições democráticas e o bem estar geral do país num esforço em guiá-lo para evolução e não deixar que retroceda, ou se por trás disto tudo esconde-se uma campanha psicológica dos (sic) intelectuais inconformados até hoje com a chegada da esquerda no poder (nossa imprensa está cheia deles) tentando fazer com que a população vote em massa num futuro candidato tucano em 2006, seja ele Geraldo Alckmin, Aécio Neves ou qualquer outro. Um grande ponto de interrogação fica no ar. E o primeiro passo para nos proteger disso é justamente fazendo-o. Porém, uma coisa já está – entrementes – em consenso e definida: Lula é um traidor. Traidor de todos aqueles que acompanharam sua trajetória e viam nele a possibilidade de toda sua ideologia reacionária e marxista ser posta em prática. Ele agora é alvejado de todos os lados.

Pobre Lula, traidor não-declarado de seus semelhantes, viu-se pouco a pouco (a medida em que a esperança foi se esvaindo diante dos fatos incontestáveis) execrado por eles. E para sua desgraça, seus novos amigos também o abandonaram e agora se juntam ao coro unânime (confuso, heterogêneo, aloprado) para exaltar “sua” condução deplorável. Vê-se quase sozinho, exilado, traído (o paradoxo dos paradoxos) e com um país nas costas. Ao seu lado, apenas a sua cúpula – que nem ele sabe se é sua mais – e os cães. Os inseparáveis e fiéis cães.

Em “A Revolução dos Bichos”, Napoleão é o líder da revolta dos animais de uma fazenda que expulsam seu dono (o inimigo, o homem) para ter o controle dela em suas mãos e poder administrá-la como quiserem e fazer tudo que sempre sonharam em fazer, tendo seus próprios regimentos e leis e seu próprio código de ética e conduta, em favor do bem-estar deles, dos animais. Passado o período de excitação e estabilidade inicial, Napoleão vai aos poucos se modificando, traindo a confiança e a natureza de seus companheiros, forjando dados, manipulando e sobrepujando ao seu bem bel prazer seus antigos amigos em virtude de sua maior inteligência e força física. Lentamente, se torna um ditador e se aproxima cada vez mais dos hábitos humanos, trai tudo a que lutou e devotou lealdade antes e instala um governo pior do que o antigo dono da fazenda (que representava toda a antítese da vida animal), ou seja: em lugar de renovação, prosperidade e mudança, do cumprimento dos ideais que haviam sido estabelecidos em conjunto anteriormente, volta tudo a ser como era antes. Agora Napoleão (um representante legitimo da classe que deu sua vida e seu sangue por mudança) é um traidor, é o inimigo, e com toda justiça. A analogia que podemos traçar com a realidade é óbvia e gritante (afinal de contas, não há nada tão verdadeiro e genialmente próximo da realidade quanto a obra de George Orwell, que se baseava nela para criar).

A figura de Lula se equivale a gênero, número e grau á de Napoleão, sendo de uma semelhança brutal a história dos dois, excetuando-se as devidas peculiaridades. E como explicado anteriormente, quem diz isso não é um devoto da causa defendida durante anos por ele. Se Lula é Napoleão, Palocci é, fatalmente, Garganta - e aqui não cabe maiores explicações para não estragar a leitura dos suculentos pormenores de “A Revolução dos Bichos”. Aquele que sempre tenta nos provar o contrário, aquele se vale das maquinações mais engenhosas para convencer-nos de que tudo está como prometido, que a causa ainda é nossa, que quer a todo custo, com números e mais números, nos empurrar goela abaixo que nossa vida está melhor. Só que tudo está inter-relacionado demais para o nosso gosto.

Esqueceram de um detalhe: diferentemente dos animas da Granja dos Bichos, somos inteligentes o bastante para pensar por si próprios, para não sermos enganados tão facilmente. E lembramos muito bem do antes, do durante e enxergamos claramente o depois. Infelizmente, não é preciso grande esforço para se lembrar e quisera nós ter realmente um “antes” e um “depois” para comparar. Simplesmente não temos. Engraçado, lembro que o camarada Napoleão sempre dizia que a fazenda do norte (ops....) o FMI era nosso inimigo, e agora eles andam de braços dados por aí, parece que ele se esqueceu, nós não. A propósito, é vital que o camarada Napoleão vá a um médico urgentemente, pois seu quadro de esclerose e amnésia está gravíssimo. Um dos mandamentos que ele seguia era: “Da esquerda bom, de direita ruim”. Mas ao que parece o que está em voga é: “Da esquerda bom, com conchavo melhor ainda”. E óbvio, tudo que dá errado é culpa do Bola-de-Neve, ou melhor, da oposição. E todos quais, em virtude de não concordar com os rumos do país, resolvem lembrar o partido de seus compromissos históricos (os chamados dissidentes), depois de acusados de terem se aliado ao Bola-de-Neve, são logo executados...perdão...expulsos. Garganta e os cães tratam logo em garantir que “o camarada Napoleão tem sempre razão”.

Cada vez mais o governo do PT se assemelha com aqueles que combatia. Para ficar tudo nos conformes, só falta proibir o hino nacional. E infelizmente, esses são apenas alguns paralelos que podemos traçar entre “Animal Farm” e a nossa atualidade e história.

A conclusão é inescapável e aterradora: não deu. É isto. O sonho acabou (se isso significa alguma coisa para você). A ideologia esquerdista não combina com o poder. Pelo simples fato de que se tornaram direita. É uma crise de identidade muito forte para eles agüentarem. Tenho pra mim que essa história de “lado” é pura besteira: direita, esquerda, acima, abaixo, setentrional, meridional, leste, oeste, norte, sul, longitude, latitude...o que significam afinal? Nada. O que existe são os que estão no poder e os que não estão, ou que tiveram seu papel reduzido. Já ficou absolutamente claro que cada qual age de acordo com isso. Simples assim. O PT criou uma ilusão, e quando teve a oportunidade de colocar em prática a ilusão que criou, tomou o inevitável choque da realidade.

Sabiam desde o início que o que pregavam não era factível, palpável e possível, mas desde quando a realidade fascina alguém? Desde quando ela angaria votos? Não foi á toa que só com a mudança de postura conseguiram finalmente chegar a presidência. O erro começou aí. Agindo de forma completamente antagônica ao que eram, acabaram gostando da brincadeira e permaneceram assim até hoje. Agora é tarde demais para tentar limpar a imagem, para o “mea-culpa”. Estão muito próximos de pagar eternamente pela traquinagem indevida. Foi-se a máscara, acabou a hora de evocar os heróis do passado, era o presente que estava em jogo, e não souberam lidar com ele. Para os incorrigivelmente esperançosos, para os que lutam para que a verdadeira revolução aconteça, mesmo que não a vejam em vida (ou alguém aí acredita mesmo na previsão da CIA de que o Brasil será uma potência mundial em 2020?), restou a utopia. Sustentada pelo bebê democrático que é a nossa terra brasilis. O futuro, ah!, o futuro...

“Lula” sempre foi um ideograma, uma personalidade, uma faceta, algo tão incorporado dentro de seu ser que Luís achou melhor agregá-lo ao seu nome. Lula representa uma figura história, é o peão, o grevista, fiel aos seus ideais, o “companheiro”, o símbolo de toda uma geração de contestadores, de uma ideologia e de um sonho compartilhado por milhões de brasileiros. Luís Inácio é o homem comum, de anseios comuns, facilmente corruptível, vislumbrado pelo poder, pela glória, sufocado pela pressão da liderança, pelo peso das responsabilidades, o burguês, com amigos burgueses, é (agora) agredido, acuado e martirizado por todos os setores da sociedade. Um era a esperança, o outro a sombra do medo e das possíveis fraquezas que ninguém queria aceitar como possíveis para não ver o castelo desmoronar antes do tempo. É uma dupla personalidade lutando para viver em harmonia.

Depois de dois anos de governo, o povo não sabe qual dos dois elegeu. Mas já se tornou impossível distinguir quem é Lula, quem é Luís.

Especial George Orwell.


[+] Envie este artigo para um amigo: