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Antonio Ozaí da Silva - Publicado em 29.08.2006




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À Olga Ozaí da Silva,
que instiga o meu interesse pela literatura, e que me orgulha por compartilhar a mesma paixão [1]


Há os que escrevem livros que os imortalizam; há os que escrevem diários que são esquecidos, como as memórias olvidadas no recôndito da consciência. Alguns escrevem por prazer, outros pela obrigação curricular – a pressão do Lattes! Uns se dirigem aos leitores imaginários, outros querem apenas aumentar a folha corrida para disputar em melhores condições os possíveis concursos e/ou cumprirem as exigências formais e institucionais. Não há a intenção de julgamento moral, pois todos somos escravos da competição desenfreada e da ideologia meritocrática, refiro-me apenas à ênfase num e noutro caso, até porque não é necessário agir à maneira faustiana dos que vendem a alma pelas conquistas materiais e título que não os acompanharão ao final inexorável.

Há os escritores elitistas que se imaginam gênios em suas torres de marfim; pensam encarnar a verdade e o mundo se reduz ao próprio umbigo. Escrevem como se a realidade, o mundo material, não existisse, mas apenas os conceitos, as categorias universais, o mundo do intelecto.[2] Há mesmo os que torcem o nariz diante da hipótese de escreverem artigos, pois os consideram efêmeros e supõem que os livros eternizam. Há também os maquiavéis modernos que escrevem como conselheiros do príncipe de plantão, na ilusão de que este, ou quem sabe os seus assessores mais próximos, o leiam.

Há, ainda, os que escrevem para transformar o mundo, palavras que anunciam utopias e, muitas vezes, encharcadas de um dogmatismo intolerante, próprio dos que querem salvar o mundo e as almas dos demais não importa qual o meio. Em tempos de internet, aliás, não é incomum o proselitismo dos missionários e panfletários que, bem alimentados e acomodados em suas poltronas à frente do computador, imaginam fazer a revolução. Em nosso tempo, a tecnologia potencializa a difusão da mensagem de grupelhos que projetam redimir a humanidade lançando suas palavras proféticas e apocalípticas na grande teia que abarca os milhões de computadores. O ciberespaço reforça o modismo dos manifestos, cuja eficácia é duvidosa mas fornece a sensação de que “estamos fazendo algo”, apazigua as consciências e nos oferta uma vitrina para exibir nossos nomes e títulos acadêmicos. O ciberespaço fomenta uma nova militância e torna possível até mesmo o “partido do eu”. Bem-vindos à militância virtual.[3]

A internet produz a ilusão da “revolução on-line” e propicia uma espécie de desencargo de consciência, como se a palavra adquirisse vida própria[4] no momento em que entulhamos as caixas postais uns dos outros com gigabytes de arquivos anexos e textos repassados num movimento circular incessante.[5] Mas a internet também potencializa as possibilidades dos intelectuais divulgarem e debaterem as suas idéias; ela democratiza o meio, ainda que limitado aos que têm acesso, na medida em que barateia e nos torna menos dependentes dos esquemas editorias mercadológicos. A despeito das vantagens que oferece, o meio virtual também têm o seu calcanhar de Aquiles. Como toda tecnologia, pode ser bem ou mal usada.

O intelectual engajado, no sentido sartreano, encontra na internet um campo fértil para a sua militância. Não obstante, este tipo de engajamento embute o engodo de acreditar no potencial mágico da virtualidade. Tende a se assemelhar ao típico intelectual incrustado na torre de marfim. Por outro lado, existe a tendência ao dogmatismo e à doutrinação. A concepção de mundo do intelectual engajado tende a ser maniqueísta, dividido entre o bem e o mal, os amigos e os inimigos. Por isso, a exemplo de Norberto Bobbio, prefiro a responsabilização do intelectual.[6]

Por que escrever?

George Orwell expôs os móbeis que o levaram a escrever e, ao fazê-lo, nos ofereceu traços autobiográficos. Para ele, este recurso se fez necessário porque “não se pode avaliar o que move um escritor sem uma noção de seu desenvolvimento inicial”. A sua formação, sua história de vida o influenciará. “O assunto será determinado pela época em que ele vive [...], mas antes de começar a escrever ele já terá adquirido uma atitude emocional da qual jamais se livrará de todo”, afirma Orwell (2005: 24).[7]

O autor de “A Revolução dos Bichos” e “1984”, relaciona quatro motivos que, em maior ou menor grau, impulsionam a escrever:

“1. Puro egoísmo. O desejo de ser engenhoso, de ser comentado, de ser lembrado após a morte, de se desforrar de adultos que o desdenharam na infância e por aí afora. É uma falsidade fazer de conta que este não é um motivo forte” [...]

2. Entusiasmo estético. A percepção da beleza no mundo externo ou, de outro lado, nas palavras e em seu arranjo correto. Prazer no impacto de um som sobre outro, na firmeza de uma boa prosa ou no ritmo de uma boa história. O desejo de compartilhar uma experiência é valioso e não se deve deixar escapar. O motivo estético é muito débil numa porção de escritores, mas mesmo um panfleteiro ou um escritor de livros didáticos terá palavras e frases prediletas que lhe agradam por razões não utilitárias [...].

3. Impulso histórico. O desejo de ver as coisas como elas são, de encontrar fatos verídicos e guardá-los para o uso da posteridade.

4. Propósito político – a palavra “político” entendida aqui em seu sentido mais amplo. O desejo de lançar o mundo em determinada direção, de mudar as idéias das pessoas sobre o tipo de sociedade que deveriam se esforçar para alcançar. Também neste caso ninguém está verdadeiramente isento de tendências políticas. A opinião de que a arte não deveria ter a ver com política é em si mesma uma atitude política” (Id.: 24-25).

Todos estes impulsos atuam sobre os escritores. A recusa, por exemplo, do fator “puro egoísmo” é hipocrisia[8]; se há algo que é comum aos intelectuais é a vaidade. Em alguns casos, esta chega a ser uma espécie de doença congênita, como afirmou Max Weber.[9] O segundo e o terceiro motivos que nos impulsionam à escrita também são identificáveis, ainda que possam ser inconfessáveis pelos autores. Orwell (Id.: 25) observa que:

“Pode-se perceber como esses diferentes impulsos são antagônicos e variam de pessoa para pessoa, de época para época. Por natureza – considerando “natureza” o estado a que se chega quando se fica adulto – sou uma pessoa para quem os três primeiros motivos tem mais importância do que o quarto”.

Trata-se da polêmica relação entre literatura e política. É possível ao escritor se isentar da política? Porém, a politização da literatura não envolve o perigo do seu empobrecimento estético e da sua redução à forma panfletária? Nem todo autor politicamente engajado produz boas obras literárias; por outro lado, autores que não tiveram a pretensão de escrever romances políticos, terminaram por nos legar obras essenciais. [10] Para Irving Howe (1998: 197): “Romancistas comprometidos com temas políticos não têm necessariamente que chegar a conclusões políticas: em geral é melhor que não tentem fazê-lo”.

A política envenena a literatura na medida em que subordina a criatividade e a necessária autonomia do intelecto às lealdades do grupo e seus dogmas. “Lealdades de grupos são necessárias, e no entanto são um veneno para literatura, uma vez que a literatura é o produto das individualidades”, salienta Orwell (2005: 161). O escritor vinculado ao partido se torna o servidor e propagandista da verdade deste; ele é vigiado e se vigia.[11] Isso significa que ele deve se refugiar em sua torre de marfim e se abster da política em nome da sua liberdade de expressão? “Temos então que concluir que é dever de todo escritor “não se meter em política”?, pergunta Orwell. Sua resposta é taxativa:

“É claro que não! Como eu já disse, nenhuma pessoa racional pode não se meter, ou realmente não se mete, com política numa época como a de hoje [1948]. Apenas sugiro que deveríamos estabelecer uma distinção mais nítida do que fazemos hoje com nossas lealdades políticas e literárias, reconhecendo que a disposição para fazer algumas coisas desagradáveis, mas necessárias, não acarreta nenhuma obrigação de reprimir as crenças que em geral as acompanham. Quando se envolve em política, um escritor deveria fazê-lo como cidadão, como ser humano, e não como escritor. Não penso que ele tenha o direito, apenas por causa de suas sensibilidades, de se esquivar do trabalho sujo e corriqueiro da política”. (Id.: 162).

George Orwell não admite que em nome da pureza estética, da arte pela arte, o intelectual se ausente do mundo real e da política. Nenhum escritor é plenamente apolítico – “E nenhum livro é de todo neutro” (Id.: 113). O intelectual, ou mais precisamente o escritor, que se refugia na comodidade do seu reduto cristalino não está imune à realidade que o cerca – em especial em tempos de crise política. O seu silêncio e/ou isolamento do mundo real paga o tributo à aceitação da realidade social, com as suas injustiças e opressões. A sua posição, mesmo quando reconhece tais circunstâncias, é não fazer nada; parte do princípio de que é melhor se resignar. “Mas, numa época como a nossa, será uma atitude defensável?”, questiona Orwell (Id.: 136).[12]

Orwell utiliza a metáfora do ventre da baleia para se referir à atitude quietista dos intelectuais. São os “Jonas” dos tempos modernos. Leiamos seu argumento:

“Claro que a criatura que engoliu Jonas era um peixe, e assim foi descrito na Bíblia (Jonas, 1, 17), mas crianças a confundem com uma baleia e esse fragmento de linguagem infantil é em geral transferido para a vida de adulto – um sinal, quem sabe, do poder que o mito de Jonas exerce sobre a nossa imaginação. Pelo fato de estar dentro de uma baleia pode ser uma idéia bem confortável, aconchegante, cômoda. O Jonas histórico, se é possível chamá-lo assim, ficou muito contente de escapar, mas na imaginação, no devaneio, inúmeras pessoas o invejaram. É claro que o motivo para isso é óbvio. As entranhas da baleia são apenas um útero grande o suficiente para conter um adulto. Lá ficamos, no espaço almofadado e escuro em que nos encaixamos perfeitamente, com metros de gordura entre nós e a realidade, capazes de manter uma atitude da mais completa indiferença, não importa o que aconteça” (Id.: 135).

Os “Jonas” do nosso tempo passam a vida na “barriga da baleia” e recusam compromissos políticos. Como escreve Orwell, “é o estágio sem igual, definitivo, da irresponsabilidade” (Id.:136). No entanto, a participação política também acarreta ônus. Eis o dilema dos intelectuais:

“Trancar-se numa torre de marfim é impossível e desaconselhável. Entregar-se subjetivamente, não apenas a uma máquina partidária, mas a uma ideologia de grupo, é se destruir como escritor. Entendemos que esse é um dilema doloroso, porque percebemos a necessidade de envolvimento na política ao mesmo tempo que também percebemos o quanto ela é uma atividade degradante e sórdida. E a maioria de nós ainda tem uma crença persistente em que toda escolha, mesmo política, é entre o bem e o mal, e em que se uma coisa é necessária é também certa. Penso que devemos nos livrar dessa crença, que pertence ao universo infantil. Em política, nada mais podemos fazer do que concluir qual dos males é o menor, e existem situações das quais só podemos escapar agindo como um diabo ou um louco (Id.: 163)”.[13]

Por que escrevo?

Embora as reflexões de George Orwell se refiram à literatura, aos livros, elas também contribuem para pensarmos nos dilemas de um simples escritor de artigos (ele próprio também produziu vários trabalhos deste tipo, inclusive resenhas e textos jornalísticos).

Orwell pensa a literatura e a política enquanto um “dilema doloroso”, mas resguardando a autonomia relativa do escritor. Este é um ser cindido, dividido entre as exigências do ofício da palavra e seu compromisso com o mundo real – a não ser que se refugie “dentro da baleia”. Mas a atuação política não significa escrever para “fazer cabeças”, “ganhar mentes”. Ela se refere apenas ao reconhecimento de que a escrita não está isenta de valores políticos e morais. Não se trata de convencer os outros de que estes valores, explícitos ou implícitos, sejam os únicos e representem a verdade absoluta. Diria que escrevo muito mais para me persuadir de que são válidos. Tenho para mim, ainda mais em tempos de internet, que o escrito não mais me pertence e que as possíveis interpretações são tão legítimas quanto o interpretado.

Escrever é um estímulo à leitura e à dúvida permanente; é um momento para organizar o pensamento e dialogar com os autores que leio. Ler e escrever é recompensador pela descoberta incessante de que as certezas não são eternas e que as incertezas alimentam a mente, na medida em que nos inspira a percorrer outros caminhos e buscar respostas que geram outras dúvidas e assim por diante... Escrever é também se expor, arriscar-se. Daí a necessidade consciente e/ou inconsciente da autovigilância. Não existe liberdade de expressão absolta, esta é sempre condicionada pela época e contexto político e social.

Confesso, porém, que me alegra – eis o egoísmo! – saber que há leitores interessados no que escrevo. E sempre vale a pena, ainda que sejam poucos. Não espero a imortalidade através da escrita, mas me sinto bem ao saber que o meu esforço para ler e escrever pode contribuir para despertar o interesse deste ou daquele jovem estudante, das minhas filhas e de muitos que conheço apenas por email. E, no final das contas, a imortalidade é uma ilusão, já que, de qualquer forma, estarei morto.

Não escrevo com a pretensão de transformar o mundo através das palavras; estas só são eficazes quando materializadas em força política – e não milito em partidos nem me sinto na obrigação de reverenciar grupos políticos. É suficiente que a escrita me transforme; então, poderei aprender a ser melhor enquanto indivíduo que atua na sociedade, como pai, professor etc. Se a leitura e a escrita me fazem melhor, também influenciam o cotidiano e o meu modo de ser e viver; e me transformando, posso contribuir mais e melhor com os que convivo. [14] E isso também me ensina que sempre há algo a aprender com eles...

Assumo, por fim, que sou apaixonado pelas palavras. E estas não são neutras, estão carregados de sentidos políticos.[15] Talvez este seja o mistério que envolve escritor e leitor. Só me resta agradecer a você por compartilhar estas reflexões.

Notas:
[1] Agradeço à Olga Ozaí da Silva por ler, sugerir e comentar este trabalho.
[2] Como assinalou Paulo FREIRE: “Em última análise, tornamo-nos excelentes especialistas, num jogo intelectual muito interessante – o jogo dos conceitos! É um “balé de conceitos”. (FREIRE e SCHOR, 1986: 131)
[3] Escrevi sobre este tema na REA, nº 24, maio de 2003. Ver: Internet e militância virtual: a revolução está no ar.
[4] Palavras “soltas no ar” não mudam a realidade. A militância virtual parece esquecer que: “As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes. Para o homem, porém, a raiz é o próprio homem.” (MARX, 2002).
[5] Como ressaltei em outra oportunidade, este tipo de ativismo redunda no que Bourdieu (1997), referindo-se ao campo jornalístico, denominou de circulação circular das informações. Como os jornalistas, os internautas constituem um campo com interesses, muitas vezes conflitantes, e propriedades comuns: lemos uns aos outros e somos informados por mecanismos e fontes semelhantes. Ver: Internet e militância virtual: a revolução está no ar.
[6] Em “Os intelectuais diante do mundo: engajamento e responsabilidade”, REA 29, outubro de 2003, analisei este tema.
[7] “Por que escrevo”, incluído na coletânea “Dentro da Baleia e outros ensaios”, organizada por Daniel Pizza (ORWELL, 2005), está disponível em http://www.espacoacademico.com.br/029/29orwell.htm (e também a versão em inglês). As citações são do livro.
[8] “Todos os escritores são vaidosos, egocêntricos e ociosos, e bem no fundo de seus motivos jaz um mistério. Escrever um livro é uma luta horrível e exaustiva, como um prolongado ataque de uma enfermidade dolorosa. Ninguém jamais se incumbiria de tal coisa se não fosse impelido por um demônio ao qual não se pode resistir nem entender”, afirma Orwell (2005: 30).
[9] “A vaidade é um traço comum e, talvez, não haja pessoa alguma que dela esteja totalmente isenta. Nos meios científicos e universitários, ela chega a constituir-se numa espécie de moléstia profissional”. (WEBER, 1993: 107; grifos nosso). Bourdieu observa que os intelectuais constituem sociedades de admiração mútua. “Afora os artistas e os intelectuais, poucos agentes sociais dependem tanto, no que são e no que fazem, da imagem que têm de si próprios e da imagem que os outros e, em particular, os escritores e artistas, têm deles e do que eles fazem. “Há qualidades, escreve, Jean-Paul Sartre, que nos chegam unicamente através dos juízos do outro” (1974: 108). As minhas reflexões sobre a vaidade e a arrogância no campo acadêmico se encontram em: “Óleo de Lorenzo e Patch Adams: A arrogância titulada” (REA, nº 28, setembro de 2003), “Aqui jaz fulano de tal... e a sua superioridade!” (REA, nº 30, novembro de 2003) e “Sobre a vaidade no campo acadêmico” (REA, nº 45. fevereiro de 2005).
[10] Em “A Política e o Romance”, Howe (1998) analisa como os grandes romancistas dos séculos XIX e XX encontraram na política uma fonte de inspiração..
[11] “No todo, a história literária da década de 1930 parece justificar a opinião de que um escritor faz bem em ficar fora da política. Porque qualquer escritor que aceite, ou aceite parcialmente, a disciplina de um partido político cedo ou tarde se defrontará com a alternativa: seguir a linha, ou se calar. Claro que é possível seguir a linha e continuar escrevendo – de acordo com um modelo”, escreve Orwell. Mas, no final, este intelectual se renderá aos ditames do partido, à lealdade ideológica devida ao mesmo. “A literatura como a conhecemos é algo individual, que exige honestidade mental e um mínimo de censura”, frisa Orwell (2005: 131).
[12] “Dizer “aceito” numa época como a nossa é dizer que aceitamos campos de concentração, cassetetes de borracha, Hitler, Stalin, bombas, aviões, enlatados, metralhadoras, golpes de Estado, expurgos, slogans, esteiras de Bedaux, máscaras contra gases, submarinos, espiões, provocateurs, censura à imprensa, prisões secretas, aspirinas, filmes de Hollywood e assassinatos políticos. Não só essas coisas, claro, mas essas entre outras coisas”, afirma Orwell (2005: 104). Estas palavras, do texto “Dentro da Baleia”, foram escritas em 1940; mudou o contexto histórico, mas o questionamento à passividade permanece atual.
[13] Mais doloroso ainda se o intelectual não faz o sacrifício do intelecto e procura manter sua independência política diante dos grupos e ideologias partidárias. O próprio George Orwell é um exemplo do quanto é difícil manter uma posição política de esquerda, porém dissidente e não enquadrada nos rótulos ideológicos disponíveis. Ver: “CENTENÁRIO DE GEORGE ORWELL - Os dilemas do intelectual militante de esquerda” (REA, nº 26, julho de 2003).
[14] A literatura tem uma função também humanizadora, nos aproxima mais dos dilemas da existência humana e nos permite compreender melhor esse ser complexo que somos. Ver: “A importância da literatura para o homem de cultura universitária, qualquer que seja sua especialização”, de Maurício Tragtenberg (REA, nº 07, dezembro de 2001).
[15] Em resenha publicada na REA, nº 13, julho de 2002, faço uma reflexão sobre “A função política da linguagem”.



Livros indicados ou citados pelo autor do artigo:

• Dentro da Baleia e Outros Ensaios - GEORGE ORWELL
• Os Intelectuais e o Poder - NORBERTO BOBBIO
• Sobre a Televisão - PIERRE BOURDIEU
• A Economia das Trocas Simbólicas - PIERRE BOURDIEU
• Medo e Ousadia: o Cotidiano do Professor - PAULO FREIRE e IRA SHOR
• A Política e o Romance - IRVING HOWE
• Crítica da Filosofia do Direito de Hegel - KARL MARX
• Em Defesa dos Intelectuais - JEAN-PAUL SARTRE
• Ciência e Política: Duas Vocações - MAX WEBER

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