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A novilíngua, a sua nova língua A novilíngua e o livro 1984 A novilíngua, a sua nova língua A novilíngua e o livro 1984 A novilíngua, a sua nova língua A novilíngua e o livro 1984 A novilíngua, a sua nova língua A novilíngua e o livro 1984 A novilíngua, a sua nova língua A novilíngua e o livro 1984

 



Publicado em 03.02.2006




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Você conhece um idioma que a cada ano a população usa menos palavras do dicionário? Não, este não é o português falado no Brasil e sim a novilíngua.

Criado para o livro 1984, a novilíngua (newspeak no original) era o idioma oficial da Oceania. Em sua obra-prima George Orwell concebeu de modo visionário um futuro sombrio, uma crítica aos totalitarismos da época.

A Oceania de Orwell era um megabloco formado pelo atual continente da Oceania, as Américas, o sul da África e o Reino Unido, ou Pista de Pouso nº1 (uma crítica às relações da Inglaterra com os EUA). Os ingleses estariam fora do megabloco da Eurásia (Europa continental e países da ex-URSS) da mesma forma que hoje não adotam o Euro. Orwell não precisou ser vidente para projetar uma unidade européia sem a Inglaterra. O último bloco era a Lestásia, a união dos Tigres Asiáticos, China e Japão. Os três megablocos lutavam entre si por uma área chamada Quadrilátero em Disputa, basicamente, a região dos atuais países islâmicos.

Em sua distopia (uma anti-utopia), Orwell descreveu um mundo onde os indivíduos eram controlados todo o tempo através de teletelas (aparelhos que enviavam e recebiam imagens e sons) e do terror do estado totalitário. Pensando bem, a luta contra o terrorismo pode nos levar a este cenário em breve.

O controle dos indivíduos era feito com o controle do pensamento. E o controle do pensamento só era possível com a redução do idioma. A novilíngua, criada para substituir o inglês, era de uso restrito. Poucos eram fluentes no idioma oficial. Entretanto, a influência da novilíngua empobreceu o inglês. Os cidadãos da Oceania falavam e escreviam um inglês reduzido. Quanto menos palavras as pessoas usavam menos elas poderiam ter pensamentos articulados, tornado-as vulneráveis às vontades do Partido.

A novilíngua eliminava os sinônimos e fundia as palavras. A redução do idioma tornava impossível pensar de forma diferente do que o Partido queria. Algumas palavras chegaram a ser adicionadas ao dicionário, mas apenas para que muitas deixassem de ser usadas. Por exemplo, a palavra “imbom” eliminava “ruim”, “péssimo”, “desagradável”, etc. As palavras se tornaram obsoletas na mesma proporção que o pensamento se tornava obsoleto.

A diminuição do idioma era uma das formas para tornar possível a transformação de tiranias em atitudes benéficas aos olhos da população. Para entender a utopia pessimista de Orwell é necessário entender como o idioma foi reduzido.

A cada edição, o dicionário diminuía de tamanho. Os revisores da 11ª edição se gabavam de que a nova edição tinha menos verbetes que a anterior. Ao comparar com a redução do idioma português a ficção se torna realidade. Este fenômeno é amplificado atualmente pelo uso do “internetês”, o português ultra-reduzido utilizado em programas de mensagens instantâneas, salas de bate-papo e em alguns blogs.

O internetês foi introduzido nas redes de televisão em março deste ano. Um canal de assinatura estreou uma sessão de filmes voltada para adolescentes com linguagem da internet. Nestes filmes são exibidas legendas com abreviações como “aki” (aqui), “cmg” (comigo) e blz (beleza) e aberrações como kerer (querer), 9dades (novidades) e xamar (chamar).

No mundo de Orwell o plano do Partido era tornar o inglês língua morta em 2050, sendo suplantado no megabloco pela novilíngua. A redução do idioma era essencial, pois reduzia o pensamento e impossibilitava as críticas aos interesses do Partido.

Mas que Partido é este? O Partido ou Ingsoc chegou ao poder após uma revolução liderada pelo Grande Irmão (Big Brother). Orwell imaginou 300 milhões de habitantes no megabloco da Ocenia divididos em três classes sociais. O Partido Interno, a elite que representava 2% da população; o Partido Externo, formado por funcionários secundários como o protagonista Winston Smith (13% da população); e a Prole que era a grande maioria (85% dos habitantes). A Prole… bem, a Prole só quer ser feliz e deixar a vida a levar.

O objetivo do Partido era suprimir a individualidade para se perpetuar no poder. A população mantinha a crença com eventos patrióticos, medo do inimigo e da vigilância constante através das teletelas.

Na novilíngua era possível construir a frase “O Grande Irmão é imbom” mas era impossível sustentar com argumentos da novilíngua esta frase. As palavras necessárias não estavam mais disponíveis. A novilíngua tinha um efeito devastador. Poderia afirmar que todos os homens eram iguais, mas não se podia afirmar esta frase, pois o único significado que restou para a palavra “igual” estava na impossibilidade de todos os homens terem o mesmo peso, altura ou cor de pele.

Em 1984 as pessoas já não escreviam. As cartas foram substituídas pelos cartões postais com frases prontas – não muito diferente dos “emoticons” dos programas de mensagens instantâneas, aquelas carinhas simpáticas que reduzem ainda mais uso do português e até do internetês no nosso mundo.

A novilíngua tornou-se presente após várias gerações. As palavras diminuíam na mesma proporção em que o poder do Partido aumentava. E o poder do Partido só estaria completo quando ninguém mais o contestasse, para isso, era necessário que todos falassem e pensassem em novilíngua.

Artigo publicado na revista Discutindo Língua Portuguesa.

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