Radiohead e Orwell (OK Computer e 1984). 2 + 2 = 5 < George Orwell < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 


 


Yuri Gitahy de Oliveira - Publicado em 08.05.2003


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Escrito durante o desgastado ambiente pós-guerra ao final dos anos 40, "1984" é uma das obras mais representativas e atemporais na história literária mundial. Tensão, culpa, ansiedade, dor e incapacidade soterram o anti-herói Winston Smith, acovardado por um mundo em que a linguagem é um instrumento político tão tangível quanto a foice e o martelo. Exagerando as conseqüências de um regime socialista extremista, George Orwell assusta o leitor com suas descrições cinzas, encarquilhadas e manchadas pela hipocrisia dissimulada do duplipensar.

Eu, entretido noite dessas em minha costumeira insônia, prosseguia com minha terceira leitura de 1984 após uma década de descanso na prateleira. Mas lá pelo meio do livro e algumas horas de leitura, tive que admitir uma sensação estranha: o sono não chegava por um motivo diferente dessa vez. Eu me sentia quase fisiologicamente incomodado, uma mescla de desânimo, inquietação e claustrofobia, a ponto de querer fechar o livro.

De onde isso veio? Um déjà-vu quase corporal me remetia a algum momento similar no passado. Mas qual? Quando eu tinha me sentido assim antes? Lendo um outro livro? A figura de Winston, sua saúde debilitada, toda a individualidade soterrada... o que era tão parecido com isso (além do mundo real)? Analisando pistas inconscientes e vasculhando meu passado literário e musical, um estalo apontou um paralelo entre Winston e os alter-egos musicais de Thom Yorke, vocalista e compositor do Radiohead. Mas como comparar 1984 e a obra depressiva de Yorke? "Kid A" é tão experimental a ponto de perturbar, mas a obra mais sensorial do Radiohead é... "OK Computer".

Nesse momento, tudo fez sentido. Eu tinha uma arma para vencer a insônia, ou ocupar a madrugada até o sol raiar - o que viesse primeiro. Minha teoria: "OK Computer" é uma releitura de Yorke para 1984. Boot no PC, "OK Computer" no CD-ROM e os dedos correndo no Google: [ "OK Computer" Radiohead lyrics ].

Noradrenalina e Dopamina
Ouvir Radiohead com atenção é sempre uma experiência interessante, pela quantidade de camadas sonoras e literárias sobrepostas em todas as músicas. Cada nota, ruído ou pausa está lá por uma razão, e parece impossível imaginá-los amarrados de forma diferente. Nessa madrugada em particular, ao ouvir o álbum com a memória inundada pelo livro, palavras impressas e cantadas se misturaram e a idéia ganhou força: se meu sistema límbico é capaz de correlacionar duas experiências, meu raciocínio também é.

A partir de agora, ouça "OK Computer" comigo através das lentes de George Orwell em 1984.

"Airbag", a primeira faixa do álbum começa com uma demonstração sonora do duplipensar. Escute com cuidado, e você ouvirá ao mesmo tempo um cello no canal direito e uma guitarra distorcida no canal esquerdo tocando as mesmas notas. Ouça os canais separadamente se ainda não estiver convencido, e por mais que você saiba que são dois instrumentos diferentes (sabe agora, porque leu esse texto), o sentido estereofônico cria um instrumento único, incorporando a textura de cada um em uma melodia importuna e inquietante, e ao mesmo tempo suave e reconfortante. Após esses dois níveis de dicotomia e duplipensamento simultâneos nos primeiros segundos de música, "Airbag" continua com uma ilustração da dependência do ser humano preso à tecnologia: confie sua vida ao maquinário, e ele cuidará de você. Confie no conforto que o sistema lhe provê, e você estará convencido de que será capaz de tudo.

"Paranoid Android" é inteira uma trilha-sonora para os sonhos que atormentam Winston: O'Brien, as visões da teletela, o seqüestro de sua consciência, o medo da tortura e do quarto 101. Preste atenção à melodia: no meio da faixa, ela sacode os ouvidos com rompantes de fúria característicos do Dois Minutos de Ódio, seguida de momentos de calmaria ("raindown come and raindown on me - From a great height"), novamente interrompidos pelo bálsamo "God loves his children", um paralelo à proteção incondicional do Grande Irmão àqueles que forem fiéis a ele. O conceito do título parece emprestado do personagem Marvin, do "Hitch Hikers' Guide To The Galaxy" de Douglas Adams: o primeiro andróide na história com sentimentos, mas que tinha um defeito: estava constantemente deprimido...

Metáforas à parte, "Subterranean Homesick Alien" é musicalmente uma das faixas mais interessantes do disco. Ao longo dela, guitarras alteradas por vários efeitos denotam vozes alienígenas conversando entre si, uma ilustração lúdica do sentido real do "alien" na música: um homem totalmente deslocado do ambiente que pode chamar de "casa". O primeiro verso descreve bem a contradição entre a realidade crua e o ambiente idealizado por Winston: "The breath of the morning / I keep forgetting the smell of the warm summer air / I live in a town where you can't smell a thing / You watch your feet for cracks in the pavement". Winston vive na superfície, mas sua individualidade está no subterrâneo - tão próximo ao mundo real, mas inatingível no regime de 1984. Provavelmente uma alusão explícita à canção de Bob Dylan "Subterranean Homesick Blues", que diz: "Jhonny's in the basement mixing up the medicine, I'm on the pavement thinking about the government".

Em "Exit Music (For A Film)", existe uma dicotomia irritante: a melodia é extremamente depressiva, enquanto "Karma Police" é uma das canções mais marcantes neste álbum, que remete tanto literalmente quanto literariamente à massacrante e onipresente Polícia do Pensamento. É como se as duas primeiras estrofes ilustrassem Winston e Júlia sendo denunciados, e o poder da organização revelado no verso "This is what you get when you mess with us", cantado friamente, ensinando uma lição quase em tom de pena, tal qual se repreende uma criança. Esse verso remete ao momento exato em que Júlia e Winston são supreendidos pela Polícia do Pensamento no quarto de Charrington, enquanto Winston inocentemente repete para si mesmo "For a minute there, I lost myself".

Ao final de "Karma Police", a sirene sobrenatural distorcida pelo efeito Doppler exagerado dá lugar a "Fitter Happier", trazendo a voz inexpressiva e monotônica sutilmente introduzida ao fundo do refrão de "Paranoid Android" (ouça novamente a faixa 2: "What's that? [I may be paranoid, but not an android]"). As promessas introspectivas de cuidar melhor de si próprio - mas obviamente nunca cumpridas - remetem à preocupação constante de Winston com suas úlceras varicosas e sua saúde constantemente debilitada. Ao mesmo tempo, a sonoridade da voz é exatamente a mesma que você esperaria saindo de uma teletela... Entrecortada sublinarmente com ruídos e música de piano, é como se víssemos Winston sendo claramente hipnotizado, a ponto de confundir as promessas metálicas com as suas próprias. "Elecioneering" é uma canção que discorre sobre o vai e vem da política, e do poder da mídia - que nada mais é que um meio para divulgação da linguagem. A letra é pequena e a música homogênea demais para permitirem maiores analogias com o livro, mas a hipocrisia política está presente. Repare no clima festivo da melodia, única do disco com essa característica.

"Climbing up the walls" é uma ode ao Grande Irmão, cantada pelo próprio. Repito aqui a letra da música, que chega a ser assustadora, e a interpretação fica a cargo do leitor: "I am the key to the lock on your house / That keeps your toys in the basement / And if you get too far inside / You'll only see my reflection / / I am your face when she sleeps tonight / I am the pick in the ice / Do not cry or hit the alarm / We are friends till we die / And either way you turn / I'll be there / Open up your skull / I'll be there / Climbing up the walls / / It's always best when the light is not on / It's always better on the outside / 15 blows to the back of the head / So lock the kids up safe tonight / And shut the eyes in the cupboard / Do not cry out or hit the alarm / You'll get the loneliest feeling that / Either way you turn / I'll be there / Open up your skull / I'll be there".

"No Surprises" é literalmente uma canção de ninar, como o insconsciente de Winston tentando confortá-lo ao explicar que existe sim uma luz ao fim do túnel: tomar consciência de que nem tudo é como se quer, mas conformar-se e continuar vivendo. Talvez uma trilha sonora para o momento em que Winston finalmente aceita o duplipensar como parte de sua vida, após as sessões de tortura. "A heart that's full up like a landfill / A job that slowly kills you / Bruises that won't heal / You look so tired and happy / Bring down the government / They don't / They don't speak for us / I'll take a quiet life / A handshake / Some carbon monoxide / No alarms and no surprises".

"Lucky" traz alguns versos interessantes, como Winston tentando ignorar O'Brien, esquecendo tudo em seus momentos íntimos com Júlia. "The Head of State has called for me by name / But I don't have time for him / It's gonna be a glorious day / I feel my luck could change" e "Kill me Sarah / kill me again with love" são os trechos que denotam essa passagem do livro. O que se repete em vários pontos da faixa seria Winston consciente do risco que corre, continuamente cantando "We are standing on the edge".

"The Tourist" foi propositadamente excluída por uma razão justa: não foi escrita por Thom Yorke, e tanto sua letra quanto estrutura musical destoam completamente do restante do álbum.

Conclusões
"OK Computer" e "1984" podem estar correlacionados somente por um simples conceito: ambos retratam angústia, depressão e inquietude de um ser humano diante do mundo que o cerca. Um paralelo existente entre quaisquer duas épocas, e também entre o 1984 imaginado por Orwell e o 1997 vivido por Thom Yorke.

Mas a opinião deste autor é que ou Yorke fez referências a 1984 propositadamente, ou estava tão imerso em sua inquietação e depressão que inconscientemente "emprestou" conceitos e sensações usados por Orwell em 1984. Parando para pensar, o paralelo chega a ser tangível: o álbum retrata o ódio de um (ou vários) personagens diante do mundo de 1997, em que o maquinário corporativo e comercial soterra a individualidade, forçando-nos a nos enquadrar num comportamento robótico, insípido e profissional.

O próprio Yorke citou em uma entrevista: "Most lyrics on 'OK Computer' are actually polaroids inside my head". Aliás, no novo disco, "Hail to the Thief", Yorke volta a citar o duplipensar na faixa de abertura. O nome da faixa? "2 + 2 = 5".

Mas talvez seja apenas coincidência.
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