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  A política e a esquizofrenia
Por: Felipe Araújo - Publicado em: 12.07.2003
Da República, de Platão, à Utopia, de Morus, a tentativa de fixar um modelo ideal de sociedade, de formatar um Estado utópico efetivamente livre e próspero, sempre moveu escritores e filósofos. Com a modernidade, porém, essa perspectiva positiva sobre os destinos da humanidade foi dando lugar a um gênero sombrio que, invertendo os pressupostos das grandes utopias, passou a pressentir e projetar futuros abomináveis para a vida humana.

O Leviatã, de Thomas Hobbes, com sua desconfiança no egoísmo do homem e sua descrença na capacidade do mundo em satisfazer todas as suas necessidades, talvez tenha sido o precursor desse gênero, constituindo-se na primeira distopia moderna. Depois vieram obras como As viagens de Gulliver, de Swift, e A máquina do tempo, de Wells, que deram continuidade a esse contraponto - ora satírico, ora melancólico - às promessas otimistas da modernização capitalista.

No século XX, fermentadas por duas grandes guerras, crises econômicas vertiginosas e implacáveis ditaduras, as distopias ganharam um novo fôlego. As fábulas sombrias de Kafka e romances como Nós (1920), de Ievguêni Zamiátin; Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley; O Zero e o Infinito (1946), de Arthur Koestler; aprimoraram as utopias negativas e consolidaram-nas quase como um gênero literário específico, revelando para milhões de leitores em todo o mundo um leque de assustadores anteprojetos para a humanidade.

Entre tantas (grandes) obras que medraram esse espírito de desencanto ao longo do século, porém, nenhuma conseguiu alcançar a badalação e a popularidade de A revolução dos bichos e 1984, os livros mais famosos do inglês George Orwell (1903-1950) - cujo centenário é comemorado na próxima quarta-feira. Mesmo sem a exuberância estilística de Huxley ou a reputação narrativa de Kafka, com esses dois romances, Orwell foi quem melhor sintetizou o espírito opressor de seu tempo, dando novos contornos às relações de poder entre os homens e escancarando a essência horripilante do totalitarismo político.

''As grandes obras filosóficas e as grandes parábolas literárias se caracterizam por dizer muitas vezes mais que seus próprios autores sabiam e por lançar uma luz surpreendente sobre as condições posteriores, que, na época do surgimento dessas obras, não podiam ainda ser levadas em conta'', defendeu o sociólogo alemão Robert Kurz, em artigo recente para a Folha de S. Paulo. ''A primeira das parábolas Orwellianas, A revolução dos bichos, já é elucidativa sob esse aspecto''.

De fato, em Animal Farm, título original do livro lançado em 1945, Orwell faz uma risível e inquietante paródia do regime stalinista a partir de um levante numa fazenda inglesa organizado por dois porcos, Napoleão e Bola de Neve. Inspirada nas orientações de Major, um porco idoso que põe na cabeça dos animais explorados pelo fazendeiro que é preciso declarar guerra aos humanos, a revolução é deflagrada e consegue instalar no latifúndio uma desastrosa suinocracia, cujos desdobramentos vão satirizar os desmandos da ditadura de Stalin.

Além de uma sátira à história da Revolução Bolchevique ou uma fábula acerca da vaidade que cerca todas as revoluções sociais - que não conseguem modificar a essência da dominação social -, o livro acabou revelando desdobramentos subliminares que devem ter escapado ao próprio autor. ''Sem querer, Orwell chega assim em sua parábola à conclusão implícita de que não é a troca sociológica do poder e de seus detentores que constitui a emancipação, e sim a superação da forma social, isto é, do sistema moderno produtor de mercadorias, comum às classes'', indica Kurz.

O mesmo acontece em 1984, onde a sátira dá lugar ao drama sufocante de Winston Smith, um funcionário público que é preso e torturado por se rebelar contra o regime do Grande Irmão, uma ditadura onipresente e onisciente que tudo manipula (da língua à memória da população) e a todos controla. Mais do que o enredo, é o mundo e as tecnologias de controle social imaginados por Orwell que impressionam - e que dão margem para as incontáveis analogias feitas a partir do romance.

Nesse sentido, tanto a direita quanto a esquerda usaram Orwell com argumento. E utilizaram fartamente seus livros, especialmente 1984, num jogo de fraudes e propaganda ideológica que devem ter feito Orwell se revirar no caixão. A primeira lendo 1984 como uma denúncia sobre o que seria a União Soviética de 1948, ano em que o livro foi escrito. A segunda enxergando na tragédia relatada no romance um alerta sobre os rumos do imperialismo norte-americano na segunda metade do século XX.

Nessa esquizofrenia literária, porém, o que impressiona (e ressalta o valor dos textos de Orwell) é que, a despeito dos excessos cometidos, os dois lados acabaram tendo razão. Afinal, Stalin e outros ditadores de esquerda vestiram a carapuça do Grande Irmão. Mas não se pode perder de vista que também o Ocidente democrático é hoje o centro de um totalitarismo de mercado tão ou mais cruel que os regimes sanguinários de outrora - especialmente porque despersonalizado e engendrado a partir de um centro anônimo e invisível de controle social.

''O mundo todo se tornou uma única e gigantesca fazenda de bichos, na qual é indiferente quem comanda, o fazendeiro Jones ou o porco supremo Napoleão, visto que os comandantes subjetivos são de qualquer jeito os órgãos executivos de um mecanismo autonomizado, que não descansará enquanto não fizer do mundo, por meio do trabalho, um deserto sem vida'', conclui Kurz. Para aquém e além das trincheiras ideológicas, era sobre esse deserto que Orwell nos alertava.

Por: Felipe Araújo - Publicado em: 12.07.2003
 
 

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1984 - Edicao Comemorativa
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