Corpos úteis e dóceis: mais comparações entre Huxley, Orwell e Foucalt < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Paulo Giardullo - Publicado em 28.08.2003

Em meu artigo de 12/08, Panóptico: Foucalt Confirma Orwell, eu falei sobre as relações que eu encontrei entre a obra de George Orwell, principalmente “1984” e a obra de Foucalt, Vigiar e Punir, em especial, no que diz respeito à idéia de vigilância, de controle, de invasão de privacidade. O Panóptico de Bentham (Prisão Modelo) analisado por Foucalt, como inspiração para a rede de controle das “Sociedades Disciplinares” tem
  1984, obra-prima de George Orwell
 


 

uma relação íntima com a Grande Tela de 1984. O “Diretor do Panóptico” se assemelha ao perfil do Grande Irmão.

Antes de ler Vigiar e Punir eu tinha a impressão, quase convicção de que as noções de controle mais sutil descritas em Admirável Mundo Novo de Huxley se aplicavam mais à nossa sociedade pseudo-democrática. 1984 se reservava mais a representar os regimes explicitamente totalitários. Mas depois, percebi que se pode fazer uma analogia mais direta da vigilância asfixiante de 1984 com nossa relação atual e isto aproxima mais ainda as duas obras, 1984 e AMN, os dois autores Huxley e Orwell, como emblemas do alerta sobre os limites a que o Alto Poder pode chegar na restrição das individualidades, seja através da coerção ostensiva ou da condução sugestionada. Eu terminei aquele artigo dizendo que a normalidade era a meta buscada pelos chefes personagens das três obras comparadas: O Diretor do Panóptico, O Grande Irmão e o Coordenador Mundial de AMN, Mustafá Mond.

Mas faltou falar sobre os Corpos Úteis e Dóceis, tema abordado por Foucalt em Vigiar e Punir, dentro da evolução de suas idéias sobre a “Tecnologia das Disciplinas”. Talvez, além da normalidade, o que os três chefes-modelos das obras citadas buscavam seria a utilidade-docilidade. Pode-se apreender que Foucalt aponta que em última instância, o Alto Poder tem como objetivo das Sociedades Disciplinares, dominar os corpos, a partir da evolução dos castigos que causavam sofrimento e mutilação física nos condenados, para um sistema em que tivesse as penas incidindo ainda sobre os corpos. Porém direcionando as sanções para se alcançar um objetivo definido: transformar esses corpos em unidades “úteis e dóceis”, nome de um dos capítulos da Obra, por sinal. Úteis para produzirem mais e em melhores condições de eficiência/eficácia, dentro do ideário capitalista. O ideal do lucro, da razão custo-benefício, que abomina tudo aquilo que se caracterize desvio, imperfeição, abstração. Dóceis, para se sustentar a hierarquia social e de comando. Corpos dóceis sim, para se neutralizar e melhor ainda, prevenir, toda forma de rebeldia e subversão. Não é por acaso, que os soldados modernos e contemporâneos são treinados com um sistema de comandos de movimentos extremamente detalhista, rígido, inovação destes tempos, justamente após a época em que foi desenvolvida a “Tecnologia das Disciplinas”. Foucalt descreve com precisão parte dos detalhes dos movimentos exigidos nas instruções militares. Ele cita principalmente, como exemplos, os detalhes minuciosos, rítmicos, que os soldados têm que fazer para atirar com um fuzil, com especificação da posição de cada parte do corpo, desde o tórax até os dedos e as instruções para progressão de tropas no terreno, havendo descrição de cada movimento, de cada membro, de cada componente da tropa. Todo esse cuidado com detalhes para maior rendimento nas batalhas, através do binômio Utilidade-docilidade. No caso dos soldados, permanentemente armados, não é difícil se dizer porque a docilidade ocupa atenção especial. Mas também o operário de fábrica é necessário que seja mantido útil e dócil. Neste caso, como tratamos da atividade propulsora da produção capitalista, a utilidade talvez venha em primeiro plano. Mas a docilidade é importante também, pois greves e insubordinações são perigosas e antiprodutivas. Foucalt então descreve os rituais a que os operários são submetidos numa fábrica, onde a disciplina é muito rígida. O foco é sobre a relação entre o tempo e a produtividade. Atrasos, desatenção, conversas paralelas (como dizem alguns professores repreendendo alunos nas salas de aula) não são permitidos. Nada pode desviar a atenção dos operários, ou melhor, “dessas UPH, unidades de produção humanas”.

E o que dizer das escolas que deveriam libertar? Elas não impõe uma rígida rotina e disciplina aos alunos, com seus sistemas de ajustamento em filas, em horários, em locais predeterminados? O objetivo é que os alunos se tornem úteis, que aprendam o suficiente para produzirem no mercado de trabalho e dóceis, que não se atenham a aprender aquilo que é inútil e potencialmente perigoso ao capital. Será que as salas de aula e as escolas precisavam ser da maneira que são, em termos de instalações físicas? Poderiam haver outras formas e locais de ensino, não?

Não é de se admirar que esta tecnologia das disciplinas tenha se baseado no Panóptico de Jeremy Bentham, um filósofo utilitarista inglês, com suas idéias sobre utilidade e felicidade.

Ora, pois em Admirável Mundo Novo de Huxley, não são justamente a utilidade-docilidade que o Alto Poder busca implacavelmente? O sistema mantém as pessoas úteis, através de todo aparato que cerca o indivíduo. A noção de utilidade chega ao extremo aterrador da produção prévia dos indivíduos em uma fábrica, com a posição social e as funções já predestinadas: Alfas, Betas, Gamas etc. Essa utilidade segue depois com o ajustamento do indivíduo ao seu trabalho em uma rede rigidamente hierarquizada e controlada, de acordo com suas castas. A docilidade é garantida com os mesmos mecanismos que garantem a utilidade, mais os mecanismos massificadores, como a Indústria Cultural de baixíssima qualidade que inibe a criatividade e o pensar, além de todos aqueles itens clássicos analisados por Huxley, como a sugestão, a propaganda, a oferta farta de sexo, prazer, conforto tecnológico, consumismo e a droga Soma como lenitivo. Mas esses elementos de massficação, de felicidade, também acabam contribuindo para a utilidade, pois até o prazer e o lazer são direcionados para se gerar consumo, movimentar a engrenagem capitalista. Theodor Adorno, um dos filósofos de Frankfurt, diz isto, quando fala que na sociedade capitalista, regida pela Indústria Cultural, o nosso lazer é direcionado pelo sistema para se adequar à relação produção/consumo. O lazer na verdade é uma continuação do trabalho na fábrica, uma preparação para aquele. Em Admirável Mundo Novo, os passeios e os esportes são planejados pelo Estado, de acordo com os interesses da engrenagem. A relação com nossos esportes atuais é óbvia. Por falar em corpos e utilidade, os corpos dos falecidos eram cremados em uma usina para se produzir energia... encerrando-se assim o ciclo de utilidade. Na verdade, a impressão que se tem em AMN e também em Vigiar e Punir de Foucalt é que o Estado quer tornar o ser humano um autômato, aproximá-lo o máximo possível de um robô ou dos “insetos sociais” (abelhas e formigas) como diz Huxley no ensaio Regresso ao AMN. O Estado quer tornar o homem previsível, útil, domesticado, para cumprir suas funções sociais, ter sua alimentação, descanso, lazer e morrer com o “mínimo de complicações possíveis” (Huxley, Regresso AMN). E após a morte ainda dar lucros, seja com seu corpo transformado em energia, como em AMN, seja em dinheiro, através da venda dos seus órgãos, com gastos funerários, com seguros ou qualquer outra forma.

Docilidade e Utilidade também são a tônica de 1984. Utilidade dos corpos para servirem no engodo da guerra lucrativa e ilusória. Utilidade para manterem a produção que sustenta a elite burocrática do Partido, enquanto ficam na miséria, enganados pela propaganda da Grande Tela sobre o “aumento astronômico da produção de alimentos e produtos”, enquanto Winston vê que usa a mesma lâmina de barbear há meses, e que os alimentos são escassos e de má qualidade e ainda que nem as vidraças quebradas dos edifícios são trocadas. Mas como 2+2 são cinco... Docilidade, porque submetidos ao sistema de vigilância contínua da Grande Tela/Panóptico, em um ambiente de ansiedade por delações, torturas e condenações com a anulação do ser, mais do que a morte, os cidadãos não tem como esboçar nenhuma relação efetiva, quando até o pensar diferente do Estado constitui crime. Isso me faz lembrar da religião, quando eu era menino me falavam: até se você simplesmente pensar uma coisa suja, pecaminosa, você já pecou contra Deus. Deus, o Grande Irmão? Na ditadura militar, o indivíduo não poderia se reunir que já poderia constituir uma conspiração (Vide Metrô Linha 743 de Raul Seixas), em 1984, um simples esboço no cérebro de crítica ao Estado já era pecado capital, digo, crime fatal, Crimidéia. Essa docilidade de 1984, porém, pode ser melhor representada com a aceitação dos indivíduos de toda a sua opressão. O ponto-chave de todo o sistema, era o fato de que o cidadão achava (ou era levado a achar) que o Estado tinha razão, que ele, o indivíduo era o culpado em cometer o Crimidéia e que o Estado não fazia mais do que sua função natural de “Vigiar e Punir”. A chave de tudo, é como na inquisição, não basta apenas a condenação, a morte do herege, é preciso e fundamental sua conversão. Que ele ame, ao final, a Igreja ou o Grande Irmão. E isto se consegue em 1984 com os recursos aterradores de Ivan Pavlov, com suas teorias do adestramento, que deu uma roupagem científica aos conhecimentos práticos dos inquisidores. A violência das violências! Muito mais do que qualquer tortura ou destruição física, é o fato de se injetar um novo pensamento, uma nova doutrina através da lavagem cerebral. Reduz-se aquilo que nos faz humanos, a nada. Poderíamos dizer que é o máximo da desumanização. É como se programar, literalmente, um robô.

Mas, como disse Charles Chaplin, “não sois máquinas, homens é que sois”. Se Huxley estivesse vivo, diria: “Não sois abelhas, nem formigas, homens é que sois”.

  Michel Foucault - O panóptico: Foucalt confirma Orwell 1984, obra-prima de George Orwell 1984, obra-prima de George Orwell Michel Foucault - O panóptico: Foucalt confirma Orwell 1984, obra-prima de George Orwell 1984, obra-prima de George Orwell Michel Foucault - O panóptico: Foucalt confirma Orwell 1984, obra-prima de George Orwell 1984, obra-prima de George Orwell Michel Foucault - O panóptico: Foucalt confirma Orwell 1984, obra-prima de George Orwell

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