Eles sempre nos levam para o quarto 101 < Especial George Orwell < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101 Eles sempre nos levam para o quarto 101

 



Paulo Giardullo - Publicado em 15.11.2003


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Em 1984, o temível Quarto 101 é o último estágio da tortura, da lavagem cerebral, onde o indivíduo tem anulada toda sua individualidade, onde ele renuncia a sim mesmo, a suas idéias e aos entes amados, em troca da aceitação incondicional do Grande Irmão, o qual não se contenta somente com a obediência, mas também quer e consegue ser “amado”. Confrontado com seu pior medo, a morte, sendo devorado vivo por ratos, Winston oferece a amante Júlia, em holocausto ao Grande Irmão, para evitar o pior para si. Depois, o enredo do romance nos dá a atender que concretamente Júlia não chegou a sofrer o martírio que seria imposto ao amado, pois ele chega a se encontrar com ela, quando é “libertado”, após a lavagem cerebral. Porém, eles já não eram os mesmos. Ambos confessam que traíram o outro. O ato é simbólico. Eles sabem que foram “fracos”. Que não resistiram à tentação de indicar o outro para sofrer “o pior dos medos”. O inquisidor diz para Winston que o segredo do Quarto, consiste basicamente em contrapor o ser humano contra os mais elementares instintos de sobrevivência, de preservação, quase involuntários. Ele diz que é natural que se espere de um homem caindo em um profundo abismo, que se agarre ao primeiro galho que encontrar e que aquele que se afoga, segure a corda que lhe é jogada.

Tudo bem. São deduções lógicas, as de O’Brien, muito bem colocadas. Mas eu pergunto: e se o ato da aceitação desse galho ou corda salvadores estiver condicionada à negação dos valores, dos ideais, das pessoas mais amadas pelo indivíduo? É esta a grande jogada. Vincular o instinto natural de sobrevivência à negação de si mesmo pelo indivíduo. As grandes estratégias do poder para se manter, talvez não seja a criação original de novos mecanismos, de novos valores. Mas, talvez a apropriação de valores aceitos universalmente, adaptados para a imposição de poder. Assim aconteceu com a religião, com a ordem, o progresso, a ciência, a moral. Não é diferente com o instinto de auto-preservação. O sistema então, mistura tão perfeitamente, suas necessidades de dominação aos arquétipos universais, que fica quase impossível se detectar a mistura e mais difícil ainda de se neutralizá-la. É por isso que se vêem tantos miseráveis empunharem até a morte a bandeira dos seus opressores. Porque junto à causa do patrão ou das elites, estão fundidos os valores que lhe são mais caros. Lutar contra os causas dos dominadores é igualmente atacar a religião, a ordem, a moral, a família. Por isso foi tão fácil neutralizar os comunistas no Brasil. Bastaram espalhar os rótulos de “ateus” (palavra horrível), que matam criancinhas e que iriam tomar nossas casas e terras.

Mas, voltando-se ao Quarto 101, eles estão sempre nos mandando para ela. Não no romance de Orwell. Mas no nosso dia-a-dia. Quando fazem isso. Bem, como podemos ver em Michel Foucault, o poder a partir do século XVIII, passou a se basear em extensa rede disciplinar, de vigilância meticulosa, estratificada.

Quando se vê ameaçado ou simplesmente questionado, o Poder não aceita discutir através da argumentação, da saudável dialética. Em que eu penso que devemos pintar o prédio de amarelo e você de vermelho. Nós misturamos, ponderamos os prós e contras e decidimos pintar de laranja. Bem, desculpem-me se foi simplista meu exemplo, mas o que quero dizer é que o poder não aceita a discussão, o debate. Parece haver uma crença de que isto significaria o desgaste, senão a extinção da autoridade.

Numa sociedade onde prevalece a sanidade, onde dois e dois fosse simplesmente quatro, isto seria perfeitamente cabível. Suponhamos que por motivo de funcionabilidade, sustentabilidade, permitíssemos a existência de certa autoridade hierárquica, para se manter uma ordem mínima. Um subordinado que dominasse mais um assunto específico ou tivesse um lampejo em que veria uma solução global que o chefe não estaria captando e que iria frontalmente contra as idéias e valores defendidos pelo chefe. Seria, nesse mundo utópico, perfeitamente natural que o subordinado pudesse discutir com o chefe, baseando-se em argumentações lógicas. Ao final, os dois poderiam chegar a um acordo, onde as alegações do subordinado poderiam ser aceitas total ou parcialmente e as mudanças levadas a efeito. Isso não iria, necessariamente, acarretar a perda ou enfraquecimento da autoridade do chefe. Pois sua hierarquia estaria baseada em um conjunto de valores que iriam além daquela vitória isolada do subordinado. Haveria então, certamente, um saldo positivo do embate e da intervenção do subalterno, para o bem da instituição e das pessoas envolvidas.

Alguém poderá dizer: “isto existe em algumas empresas”. Pode ocorrer, mas de forma isolada, parcial. Ocorre quando há um chefe “mais democrático”, que ouve e respeita os subordinados. Mas, por mais afetuoso que seja, dentro da rede do poder, um chefe é sempre um chefe. Pode ocorrer também, quando as sugestões do subordinado forem indubitavelmente vantajosas para a empresa. Quando ele, eventualmente viu o que ninguém viu e o conjunto da coisa não confrontar com o cerne dos valores do chefe ou da instituição. Nunca ocorrerá de forma total e corriqueira em nossa “sociedade disciplinar”.

Em alguns casos, parece que a instituição prefere perder “as engenhosas inovações” do dedicado e criativo funcionário do que arranhar a hierarquia. É aquela máxima: apatia não, mas criatividade em excesso é perigosa. É o “comportamento desejado” do behaviorismo, pregado pelos engenheiros sociais americanos da primeira metade do século XX, à moda Watson ou Skinner: o “dinamismo conformado” ou “conformismo dinâmico”.

Assim, quando frontalmente questionados, ainda com argumentos coerentes, o que em geral os chefes fazem é mesmo mandar o subordinado para o Quarto 101. É o tudo ou nada. Ou o rebelde aceita as regras do jogo, quieta o facho e vai produzir calado como os outros, ou vai para a rua, é transferido, rebaixado. Outras vezes é colocado na geladeira. Ignorado nas promoções, nas comissões, transformado num zero à esquerda. Exatamente como Winston após a lavagem cerebral, isolado jogando xadrez em um bar vazio. Ninguém ousa se aproximar do herege convertido. Mexem diretamente no bolso, no dinheiro. Como ninguém vive sem dinheiro no mundo civilizado... Geramos dinheiro com trabalho, com emprego, pelo menos quem não possui meios de produção, como diria Marx. Portanto, é preciso se agarrar ao emprego, como o afogado citado por O’Brien se agarraria à corda que lhe é entregue. Ainda que esta corda seja jogada pelo “Grande Irmão” ou pelo “Grande Chefe”. Ainda que agarrar-se a esta corda, signifique renunciar a todos os ideais e valores, a si mesmo. Ante a “proposta” do chefe, entre o subordinado insistir na heresia e se dar mal e por outro lado “se-ajustar-como-os-outros-que-produzem-sem-rebeldias-inconseqüêntes”, mantendo o emprego e a sobrevivência, o sujeito pede um tempo para pensar.

Então, anda pelos corredores, olha pela janela, toma um café, passa pela faxineira sem notar-lhe a presença. À sua mente vêm as lembranças da família feliz e segura, a casa confortável, eletrodomésticos, plano de saúde. A geladeira cheia. A minivan na garagem. Por outro lado, sobem-lhe lampejos de dignidade, lembra-se dos seus tempos da faculdade, algumas palavras de ordem lhe voltam à memória, juramentos com colegas mais exaltados, em meio a vinhos e charutos. Lembra-se da imagem daquele jovem com cavanhaque, boina e olhar sonhador que admirava na juventude. O que este Chefe pensa que é com seu empreguinho! Podem fazer o que quiserem comigo, mas nunca, nunca me farão abandonar meus ideais. O nosso Smith contemporâneo olha pela janela e vê, por acaso, a foto de um mendigo, maltrapilho e faminto, do outro lado da rua. Pensa nas dívidas que tem para pagar, no cheque especial, no financiamento da casa. Decide afinal, “Chefe tem razão”. Além do mais, o Cruzeiro está prestes a ser campeão, no final de semana tem cerveja gelada no bar do “Du”, com direito aos jogos do brasileirão com antena parabólica e flashes do concurso da Nova Garota do Tchan. Nas férias iremos pra praia, com os meninos...

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