Poesia na balada da cumbia. Entrevista com o poeta argentino Washington Cucurto < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 


 



Entrevista com o poeta argentino Washington Cucurto

Christina Lima - Publicado em 09.12.2005




Publicidade


A sensualidade e a irreverência da cumbia dão o tom da literatura de Washington Cucurto. Assim como a dança quente e marginal (com muitos apreciadores na Argentina) o trabalho desse escritor de 32 anos vem da periferia de Buenos Aires para provocar. O cenário são as ruas do subúrbio ocupadas por imigrantes, prostitutas, proletários, dançarinas. Entre suas obras estão os livros de poesia “Zelarayán” (Ediciones del Diego, 1998) e “La Máquina de Hacer Paraguayitos” (Ediciones Siesta, 1999) e o de prosa “Cosa de Negros” (Interzona, 2002) que abocanhou o Prêmio de Melhor Livro de Ficção concedido pelo Jornal Página/12 em 2003.

O próprio Cucurto é uma ficção criada por Santiago Vega, simpática e acessível criatura nascida em Quilmes, casado com Sunilda, pai de Baltazar (3 anos) e esperando por Mariela. O escritor vem sendo incensado pela crítica. Agora não é apenas popular, é também pop. Ganhou prêmios literários, tem fã clubes. “A classe média quer fazer de mim um fenômeno cultural? Bobagem!”, dá de ombros.

O poeta está mais preocupado com a temporada de um ano como convidado da prestigiosa Akademie Schloss Solitude em Stuttgart, Alemanha. Embarcou em meio ao lançamento de seu mais recente livro “Las Aventuras del Sr. Maíz” (Interzona). “É sobre um homem que usa seu membro de ouro para conquistar todas as mulheres”, adianta o fellow que já está sofrendo com saudades de casa.

Muito à vontade entre bailarinas de salão, sua menina dos olhos é mesmo Eloísa. Pela aura de sedutor que Cucurto cultiva seria fácil supor que é uma mulher, mas Eloísa Cartonera é uma original editora que publica livros artesanais com capas de papelão recolhido por catadores de rua. As capas exclusivas, decoradas uma a uma, são recheadas com obras de novos autores e também artistas consagrados que autorizam a reprodução de seus textos. O escritor é um dos responsáveis pelo projeto que é, ao mesmo tempo, artístico, social e comunitário. Não é à toa que Eloísa Cartonera é considera “a editora mais colorida do mundo, com o catálogo mais pontiagudo da literatura sul-americana”. A idéia, que já é bem-sucedida no México, Bolívia, Venezuela e Peru, pretende ser implantada também no Brasil, onde já foram realizadas oficinas com garis e catadores de papel do Rio de Janeiro.

Você é autodidata? Quando começou a escrever?
Sim, sou autodidata. Comecei lendo de maneira desordenada por minha conta e sem saber bem um monte de coisas. Lia enlouquecidamente o que me caía nas mãos. Comecei a escrever aos 24 anos. Meu primeiro livro de poemas era uma cópia de todas as coisas que vinha lendo: desde Lezama Lima até (Giuseppe) Ungaretti passando por (Pier Paolo) Pasolini e por (Jorge Luiz) Borges ou Juan Gelman.

Seu trabalho é impregnado pelos odores e música das pessoas que vivem à margem da grande cidade. Qual o fascínio dessa atmosfera?
Comecei a escrever para contar ao mundo que conheci quando jovem e minha fascinação por este mundo é a mesma que podemos ter por uma rua do bairro ou uma árvore do quarteirão onde nascemos ou vivemos nosso primeiro amor.

Você é considerado o inventor da "cumbiela" e autodenominou seu estilo como "realismo atolondrado". Quais as características desses gêneros literários?
Escrever com liberdade. Penso que a arte é libertação ou não é nada. Escrever durante os momentos mais terríveis me ajudou a continuar vivo, por isso minha literatura é vitalista, estando mais perto do equívoco do que da perfeição e dos sentimentos do que da intelectualidade. O sexo, a dança e o amor são coisas que marcam esse estilo apressado, de como quem está tateando no escuro como quando fazemos amor pela primeira vez com uma mulher. Não sabemos qual será o ponto em que ela tocará, nem do que ela mais gosta. Assim é minha literatura: caminhar por um terreno desconhecido onde os sentidos cumprem um papel fundamental, como na cama. O sexo e o amor são obscenos, têm odores, suor, saliva, grude, secreções. Isso é o amor!

E sabe dançar bem a cumbia?
Perguntar isso a um homem é como perguntar se ele pode fazer amor muito bem. Eu não sei. Melhor te diria: sei dançar bem a cumbia, sei beijar bem, sei fazer amor e dar carinho bem. Acho que sim. Pode provar se quiser! O melhor é averiguar, ex-pe-ri-men-tar.

“Zelarayán”, seu primeiro livro de poesias, editado em 1988, foi retirado em 2001 das Bibliotecas Populares da Argentina acusado de ser uma obra pornográfica e racista pela Secretaria de Cultura da Nação. Como esse episódio o afetou?
Encheu-me de alegria. Pensar que tinha uma arma nas palavras. Que a literatura, a poesia podia ofender mais do que a televisão, a injustiça social, a miséria. Bobagens da burguesia do poder!

Aos poucos você rompe o círculo de autores alternativos e se transforma em um fenômeno literário. Sua obra "Cosa de Negros" chamou muita atenção, ganhou o Prêmio de Melhor Livro de Ficção de 2003 na Argentina e vendeu bem. Como é o seu relacionamento com o mercado editorial?
Sou um negro da rua. Sempre fui alternativo, meu trabalho foi publicado em editoras pequenas que eram as únicas que se atreviam a editar minhas aventuras atordoadas e amalucadas. E agora quer dizer que jogo na primeira divisão? Que meus livros não são lidos pelos cumbieros, mas pelos caretas da faculdade de Humanas? Que a classe média quer fazer de mim um fenômeno cultural? Bobagem. Não acredito em nada disso. “Cosa de negros” é um livro escrito há mais de dez anos, velho, bobo, enrugado. Minha relação com o mercado sempre será péssima porque não serei um fantoche das grandes editoras e sim um Gardel das pequenas, como Eloísa Cartonera.

Como surgiu a idéia de publicar os livros em papelão?
A situação econômica, nossa emergência social e a impossibilidade de ver todas as portas fechadas nos levou a uma nova porta, a da frase: “faça você mesmo e não espere que ninguém faça nada por você”.

Quando outros artistas começaram a fazer parte do projeto de montar a editora Eloisa Cartonera? Quem são eles?
Os artistas são Javier Barilaro, Fernanda Laguna, Fabián Casas e ainda muitos autores jovens que chegam a toda hora em nosso empreendimento cultural - e principalmente - social.

Qual o objetivo desse projeto?
Demonstrar que do nada tudo é possível, que há tempo para um monte de coisas e que uma nova literatura, assim como uma nova forma de viver ainda é possível.

O catálogo da editora já possui mais de 50 títulos. Dois livros são de autores do Brasil (Haroldo de Campos e Glauco Mattoso). Há a intenção de incorporar mais escritores brasileiros na coleção da Eloísa Cartonera?
Claro, tenho paixão pela cultura brasileira. Adoraria publicar autores jovens e também “Macunaíma” em uma versão muito mais descarada do que a atual em Espanhol. Quem sabe algum dia eu faça uma tradução tomando algumas liberdades? E também de “As memórias sentimentais de João Miramar”. Há também autores jovens como (Guilherme) Zarvos ou Rodi Brito, que admiro muitíssimo. Camila do Valle (autora de “Mecânica da distração: os aprisântempos” (Design [Casa8]) é a rainha da poesia brasileira, e mais do que isso, estou certo de que é a rainha de todo Brasil. Uma poeta linda, bondosa e fogosa. Ai como seria gostoso ser seu escravo!

No Brasil estamos familiarizados com o trabalho dos catadores de papel pelas cidades. Os "cartoneros" de Buenos Aires surgidos da crise econômica na Argentina surpreenderam os portenhos?
A injustiça social, o maltrato das crianças e a violência contra as mulheres são fatos que não surpreendem ninguém. É uma pena muito grande que isso aconteça em toda a América Latina. Esse é o nosso grande problema: a desumanização de nossas sociedades, a falta de compreensão e o afeto morto.

Um projeto como esse poderia ser implantado aqui no Brasil como modo de gerar renda para os catadores de papel?
No Brasil poderia ser utilizado de maneira muito proveitosa e para benefício das pessoas. Creio que o povo brasileiro é um povo que tem amor por sua arte, por sua música e pelas coisas que nascem dele mesmo.

Como está a atual literatura argentina? É feita por jovens? Tem o mesmo vigor e talento do cinema argentino?
A literatura argentina tem como tradição a ruptura, é muito livre, muito variada. Agrega todas as estéticas imagináveis, desde o neobarroco passando pelo realismo político, pelo neoromantismo até a cumbiela. Nela convivem autores como César Aira, Borges, Alejandra Pizarnik, Oliverio Girondo, Juan Gelman, Fabián Casas, todos muito diferentes entre si. A literatura argentina tem muita mais força do que o cinema ou arquitetura. O melhor sempre passa pela poesia argentina, completamente inovadora em todas as suas manifestações.

Qual a importância de ouvir as vozes da poesia e da prosa latino-americanas?
Conhecer a riqueza cultural de nosso continente e gerar uma aproximação entre povos e culturas distintas através do livro. Essa é a importância.

O que está faltando para haver maior intercâmbio entre escritores latino-americanos e principalmente brasileiros, naturalmente mais isolados pelo idioma, dentro da América do Sul?
Ler mais, fazer muito amor, dançar todos juntos a cumbia, respeitarmos uns aos outros e nos fundir em um grande beijo eterno.

Quais seus planos para 2006?
“Brincar” - ao estilo de Macunaíma - saltar, beijar, sonhar e terminar a biografia do ator Ramon Valdéz (Seu Madruga), personagem do programa da TV mexicana Chaves.


[+] Envie este artigo para um amigo: